Manhã de uma terça-feira e a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Oeste, na avenida Barão Homem de Melo, no bairro Jardim América, em Belo Horizonte, está cheia. Vários pacientes esperam ansiosos com sintomas que, para eles, são de quadros que requerem atendimento imediato.

Na estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) BH, as UPAs são as portas de entrada para casos de urgência. Mas os pacientes ainda não assimilaram essa lógica.

Na UPA Oeste, a dona de casa Luciana Reis Santos, de 48 anos, foi atendida com uma torção no pé. Foram cerca de duas horas esperando para ser tratada, ter o pé imobilizado e liberada. “Achei o atendimento mais ou menos, porque demora muito”, avalia.

A cabeleireira Juliana Araújo, de 21, também aguardou duas horas para ter a torção no joelho medicada. Diferente de Luciana, saiu satisfeita com a assistência. Tanto que resolveu esperar mais um pouco para passar por um dentista da UPA. “Vou aproveitar, pois também estou com dor de dente. Acho que não demora muito”.

A cabeleireira tentou a consulta com o dentista no posto de saúde, mas o profissional não “pôde atendê-la”. “Faltavam dez minutos pra acabar o expediente dele e eu esperava atendimento. Ele foi embora e me mandou vir à UPA, que funciona 24 horas”, diz, indignada.

Competição

Casos como o de Luciana e Juliana poderiam ser atendidos na unidade básica de saúde, explicam especialistas. Aliás, deveriam, para não sobrecarregar as UPAs com demandas mais simples, que acabam “competindo” com as urgentes.

Segundo a superintendente de Atenção primária à saúde da Secretaria de Estado de Saúde, Maria Tourci, cerca de 85% das pessoas que vão às UPAs deveriam procurar os postos. São pacientes classificados no Protocolo de Manchester como verdes ou azuis e que, portanto, podem esperar mais tempo para ser atendidos.

“Existe uma tendência das pessoas procurarem a porta de urgência quando tem um problema agudo. Mas estes lugares estão preparados para atender pessoas com risco de morte. Se o caso for sem gravidade, a pessoa vai receber uma intervenção médica que poderia ser evitada. Não é que o procedimento seja errado, a vocação daquele lugar é para isso. No posto, o problema pode ser observado e o médico encontrar outra saída. Além do mais, o custo é menor”, explica Maria Tourci, que é doutora em saúde pública.

A professora da Faculdade de Medicina da UFMG Eli Iola Gurgel Andrade, integrante da diretoria da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), afirma que há a cultura de procura pela atenção hospitalar e as UPAs. “Isso acontece porque todo o modelo foi desenvolvido anteriormente assim. Não tínhamos essa organização pela atenção básica. Sempre foi focada na atenção especializada. Desde 2004, a estruturação vem mudando”.

As duas especialistas ressaltam que enquanto não houver uma rede de atenção básica qualificada e abrangente, a urgência ficará sobrecarregada. “Hoje, 35% das internações em Minas são sensíveis à atenção básica, não precisariam acontecer se o atendimento primário tivesse mais resolubilidade”, diz Maria Tourci. Para Eli Iola, há uma crise de confiança na assistência primária, “que tem várias limitações”.

Demanda do interior compromete atendimento em Belo Horizonte
 
Na porta do Hospital de Pronto-Socorro João XXIII (HPS), o músico David de Souza, de 21 anos, morador de Sete Lagoas, na região Central, espera para visitar a mãe, Suely de Jesus de Souza, de 49. Ela sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e há uma semana está internada. Passou pelo CTI e agora recebe os cuidados no quarto.

No hospital, o atendimento foi “100%”, diz o músico. Porém, até chegar à unidade, referência em atendimento de urgência, a experiência com o SUS não foi nada boa. David afirma que a mãe dele sentiu uma forte dor de cabeça enquanto fazia atividades físicas num projeto da prefeitura de Sete Lagoas.

Foi levada para a UPA local, onde foi medicada para dor, passou a noite sentido mal e foi liberada na manhã seguinte. Ainda com dor, a família a levou num médico particular, que identificou se tratar de um caso de internação.

O médico conseguiu uma vaga no Hospital Municipal, onde Suely permaneceu por três dias, dois em leito de CTI, até conseguir a vaga no João XIII, em BH. “Lá (em Sete Lagoas) o atendimento foi zero. Só de saber que mandaram ela pra casa com um AVC, a gente vê o despreparo”, diz o músico.

Demanda de fora

São muitos os casos como o de Suely, de pacientes do interior que chegam à capital em busca de um tratamento mais qualificado. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, por meio da Central de Internação (CI) são feitas cerca de 20 mil internações por mês, 40% do interior.

De acordo com o secretário municipal de Saúde, Fabiano Pimenta, a estrutura hospitalar seria suficiente apenas para BH. Porém, a demanda de fora sobrecarrega o sistema. “BH é referencia para a região metropolitana e outros municípios. Isso é um estrangulamento que temos”, diz.

Além da ampliação de leitos, o secretário ressalta que é preciso qualificar o atendimento no interior. “Eles podem e devem atender as demandas menos complexas e, com uma reestruturação do Samu, drenarem os casos que de fato necessitam vir para BH”, diz. O secretário cita a implantação em curso do Samu Regional Centro, coordenado pelo governo do Estado.

De acordo Pimenta, outro passo importante para qualificar a urgência na capital é a redistribuição da demanda que o Hospital do Barreiro vai proporcionar. “A maioria das portas de urgência estão concentradas no Centro, com o HPS, o Hospital das Clínicas e o Centro Geral de Pediatria (CGP). No vetor Norte temos o Risoleta Neves e no Noroeste o Odilon Behrens. O Hospital do Barreiro vai ajudar a reorganizar essa rede de urgência e emergência, tendo uma importante porta de entrada no vetor Sul”.

O secretário destaca que a nova unidade, inaugurada no sábado passado, vai incrementar a rede hospitalar com 439 leitos quando estiver em pleno funcionamento. Serão 320 de internação (80 potenciais para UTI), 39 leitos de pronto- socorro e 80 de CTI, além de enfermarias e 12 salas de cirurgia. Por enquanto, só a urgência e emergência estão ativos.

Regionalização é a saída para reduzir os gargalos na capital, aponta especialista

Para reduzir o gargalo nos hospitais e UPAs de Belo Horizonte é preciso investir na regionalização. A avaliação é da professora da Faculdade de Medicina da UFMG e integrante da diretoria da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) Eli Iola Gurgel Andrade.

“Não há como todo mundo ser atendido no Hospital das Clínicas, por exemplo, onde só deve chegar os casos mais complexos, que não podem ser atendidos em outras unidades do Estado. A regionalização é fundamental para adequar os equipamentos às necessidades de cada população”, diz.

O secretário estadual de Saúde Fausto Pereira dos Santos reconhece que os pacientes procuram os grandes centros para conseguir atendimento em especialidades médicas e internações. Para garantir essa assistência, segundo ele, é preciso concluir as obras dos hospitais regionais e, com isso, ampliar para as macrorregiões o atendimento hospitalar.

De acordo com o secretário, as obras dos hospitais regionais estão em andamento, mas “alguns ainda têm gargalos por conta de contratos antigos”. “Governador Valadares, Juiz de Fora e Teófilo Otoni estão em pleno funcionamento. Cada uma das obras está sendo discutida individualmente para resolver os problemas, com análise dos projetos para saber quanto de recurso ainda é necessário para terminar. O Deop (Departamento de Obras) está junto com a secretaria nessa análise, com prioridade de retomar todas o quanto antes”, informa.

Filantrópicos

Segundo o secretário, enquanto os hospitais regionais não são concluídos, o Estado articula como fortalecer os filantrópicos para atendimento por regiões, como em Montes Claros, Uberlândia, Juiz de Fora, Ipatinga, Governador Valadares e Varginha. “A ideia é a que as unidades de saúde recebam mais do Estado por produção”.

Nos últimos cinco meses, houve crescimento de cerca de 40% dos atendimentos nas UPAs de Belo Horizonte por causa da demanda do interior
A prioridade das UPAs são casos agudos ou crônicos agudizados e a estabilização dos quadros graves até a transferência do paciente para uma unidade hospitalar conveniada, quando necessário