Dez cordas de aço e um corpo de madeira que se tornaram símbolo de uma das manifestações mais fortes da cultura mineira. A viola está a um passo de se transformar em patrimônio imaterial do Estado e os motivos para o reconhecimento não são poucos. 

O instrumento português que chegou ao Brasil no período da colonização foi tão bem acolhido em Minas que ganhou nomes, formatos, técnicas de fabricação e maneiras de tocar completamente diferentes.

O pesquisador Carlos Felipe Horta, estudioso da trajetória da viola no país, relata que, com o tempo, ela foi ganhando adeptos em todos os cantos do Estado e, por isso, acabou se transformando em um objeto tão representativo.

“Tanto que nós temos a caipira, a nordestina, a de cocho, a de taquara e muitas outras”, explica. “Mesmo quando o violão ganhou fama, a viola continuou sendo um instrumento considerado ideal para acompanhar o canto e se fazer serenatas, por exemplo”, completa.

Com a popularidade em alta, explica o pesquisador, o instrumento passou a ser admirado não apenas pelas camadas populares, mas também pelas classes mais ricas. “Além disso, conseguimos gerar instrumentistas que se tornaram referência. Tudo isso leva a viola a merecer essa honra de se tornar patrimônio de Minas”, justifica Horta.

“Cheguei a estudar marcenaria e violão clássico, mas em 1986, depois de um festival em Ouro Preto, comecei a fabricar peças para viola e não parei mais” (Vergílio Lima, luthier)

Reconhecimento

A ligação do instrumento às tradições em todo território mineiro levou o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) a elaborar um dossiê que será apresentado, hoje, ao Conselho Estadual de Patrimônio Cultural de Minas Gerais (Conep). 

A partir daí, a viola entrará para o mesmo hall do Queijo Artesanal do Serro, a Comunidade dos Arturos de Contagem, a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Chapada do Norte e das Folias de Minas. Ou seja, será reconhecida, definitivamente, como patrimônio mineiro. 

Tradição

A presidente do Iepha, Michele Abreu Arroyo, explica que, durante o levantamento, a viola foi encontrada em praticamente todos os municípios do Estado. “É uma tradição viva”, garante.

Com a honraria, explica Michele, a proteção dela e dos violeiros vai se tornar mais fácil por meio da construção de novas políticas públicas dirigidas a essa tradição. “Isso permite ações de salvaguarda. A partir daí, voltamos a cada lugar que visitamos e começamos a traçar ações de apoio de acordo com a necessidade da região do Estado”, explica. 

Para celebrar a coroação do instrumento, um show com os principais nomes da viola em Minas Gerais será realizado gratuitamente na Praça da Liberdade, a partir das 19h.

Pereira da Viola, Chico Lobo e Wilson Dias
Pereira da Viola, Chico Lobo e Wilson Dias se apresentam com outros violeiros, hoje, na Praça da Liberdade

1,3 mil violeiros e e artesãos foram mapeados em minas, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG)

Influências

A difusão da viola em Minas teve como impulso o trabalho dos artesãos que se dedicaram a aprender cada detalhe da fabricação do instrumento europeu. O luthier Vergílio Lima, de Sabará, na Grande BH, atua há 40 anos na área e sabe como poucos do cuidado necessário para a construção de um artigo de qualidade.

Reconhecido pelo trabalho de restauração das Violas de Queluz – famosas pela produção familiar em Conselheiro Lafaiete – ele explica que a diferença está nos detalhes. “A madeira para um instrumento de qualidade precisa de uma secagem natural, que pode levar uma década. Então a gente garimpa esse material em demolições de construções antigas, por exemplo”, explica. 

 

O jeito brasileiro de confeccionar as violas também ganhou traços tupiniquins. Vergílio explica que, em Portugal, a feitura do instrumento é a mesma há séculos, enquanto aqui, o processo recebeu todo tipo de influências, sobretudo indígenas. “Isso fez com que nós tivéssemos também os melhores violeiros do mundo. A maioria deles com capacidade acima da média, o que impressiona a todos na Europa”, completa o luthier.

O dossiê “Saberes, Linguagens e Expressões Musicais da Viola em Minas Gerais”, que será apresentado hoje ao Conselho Estadual de Patrimônio Cultural de Minas Gerais, foi elaborado por meio de visitas a todas as regiões do Estado durante cerca de um ano

Talento

Referência no assunto e um dos protagonistas do instrumento no país, Pereira da Viola afirma que a condecoração proposta pelo Iepha assegura a conservação de uma prática popular muito valiosa para o Estado.

“É um marco e muitas portas vão se abrir já que, hoje, a viola ocupa as melhores salas de BH, mas ainda se depara com grandes produções que são fechadas para os violeiros”, pondera.

Para Letícia Leal, que apesar de ser veterinária fez da viola a fonte de sustento, a tendência é que mais barreiras sejam rompidas. Ela revela que no começo enfrentou resistência em um nicho machista, mas que, aos poucos, conquistou seu espaço. “Isso vai valorizar nosso trabalho e, principalmente, facilitar o reconhecimento dos editais de incentivo”, avalia.

A mostra fotográfica “Violas de Minas: patrimônio imaterial de Minas Gerais”, que registra as diversas formas de construção do instrumento, estará disponível para visitação até 8 de julho, no Espaço do Conhecimento UFMG, na Praça da Liberdade

Letícia Leal
Veterinária por formação, Letícia Leal decidiu enfrentar o machismo para dedicar a vida à prática da viola