Desenvolver a indústria da moda mineira e tornar o segmento no Estado uma referência para o Brasil é um dos desafios a que se propõe o presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário do Estado de Minas Gerais (Sindivest-MG), Luciano José de Araújo, há um ano à frente da entidade.

Com o sucesso já consolidado do Minas Trend, semana de moda com salão de negócios que tem foco no atacado, a instituição aposta em novo evento para fomentar as empresas de pronta-entrega do setor, o Trend Now.

A ação, iniciada em 14 de agosto, terminou na última sexta-feira com expectativa de ter movimentado R$ 30 milhões em vendas. Confira, nesta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, os planos futuros para a indústria da moda em Belo Horizonte e também em Minas Gerais traçados pelo Sindivest.

O Minas Trend já vai para a 21ª edição, em outubro, e sempre privilegiou as empresas que trabalham com atacado. Agora, o Sindivest e as confecções apostaram no Trend Now. O evento surgiu de uma demanda que estava reprimida?
O Minas Trend está consolidado e é um evento de sucesso, importante para mostrar a força da moda mineira. Há empresas que registram mais de 60% do total das vendas sendo feitas dentro do Minas Trend. E a gente tem observado, nos últimos anos, que às vezes as pessoas vêm participar do evento, mas acabam indo também visitar algumas prontas-entregas e, a pedido das próprias empresas, resolvemos organizar isso melhor, criando um evento para esse segmento. Com isso, além de privilegiar esses negócios, nós temos figuras importantes neste processo que são os corretores de moda e essa foi uma forma de também valorizar o trabalho deles, que é importante para as nossas confecções, criando esse circuito, oportunizando a vinda de compradores de fora do Estado, complementando o Minas Trend. O grande objetivo é transformar Minas em uma referência da moda no país. Cada vez mais trazer essas soluções para consolidar Belo Horizonte como a capital da moda mineira e chamar a atenção do país para o design e a criatividade de BH e de Minas Gerais. Até porque, apesar de, no Minas Trend termos uma maior participação de empresas de BH, tem crescido a presença de empresas do interior.

Como uma primeira experiência, qual foi a resposta do Trend Now junto aos empresários?
Extremamente gratificante. Nós organizamos e conseguimos um número de 58 empresas participantes, apresentando as coleções. Trouxemos 92 compradores vips de todo o país para este evento. Fizemos um circuito com os showrooms muito bem elaborado, estruturado pelas empresas. Criamos um aplicativo, baixado por mais de 300 pessoas. Ou seja, sentimos que foi uma solução que já nasceu grande. Esse é o ponto, quando você cria algo que é importante para o mercado, a resposta é rápida. Está exatamente como a gente gostaria, um sucesso absoluto. A projeção inicial é de que tenha movimentado R$ 30 milhões.

E a ideia é que aconteça duas vezes por ano, assim como o Minas Trend?
Sim. Até porque as prontas-entregas têm datas diferentes do Minas Trend. Então, são dois eventos que não concorrem, complementam-se e movimentam a cadeia produtiva o ano todo. Outra coisa importante é a parceria que fizemos com a BH Airport, tendo no Aeroporto de Confins um mostruário sendo apresentado, chamando a atenção de quem passa pelo local para a importância do evento que fizemos. Algo relevante para o movimento.

Com o passar dos anos, é perceptível uma mudança no Minas Trend, inclusive física, de organização e elaboração do evento.Existem novas propostas para as próximas edições?
Acredito que essa aceitação cada vez melhor do evento é um reflexo de ouvir bem as demandas da indústria mineira. Com todo o problema da crise econômica que passou, porque nós estamos afirmando que ela passou, não tivemos grandes perdas de participação no evento, inclusive com novas empresas chegando. Para a próxima edição, em outubro, já teremos um número de stands maior do que em abril. Então, gerando essas oportunidades para a indústria e atendendo às necessidades que eles têm, obviamente, irão acreditar e investir mais no evento, preparar melhores coleções e, com isso, o evento todo ganha.

A moda é um segmento que gera renda, o segundo maior em geração de empregos no Brasil. Mas, às vezes a gente discute com o governo, porque não é o setor que gera mais

Um dos projetos de sucesso do evento é, sem dúvida, o Ready to Go, que premia os novos talentos da moda...
O Ready to Go é exatamente dar oportunidades para jovens que têm todo um design, um estilo para apresentar os produtos e quem ganha o concurso acaba levando um stand para a próxima edição e isso vai retroalimentando o próprio Minas Trend, fazendo com que marcas sejam descobertas e gerem novas oportunidades de negócios. E é fundamental ter uma boa curadoria, um trabalho bacana de seleção desses jovens e ajudá-los para que coloquem em prática toda essa criatividade.

Além do concurso, o que mais eles ganham?
Além de você dar a vitrine de que eles precisam, prepara esses jovens. Eles entram sem custo algum, a gente paga todo o custo de curadoria, identificação, aprovação, preparação da apresentação da ideia para o Minas Trend. É todo um investimento que o Sindivest faz. Quer dizer, você começar já podendo mostrar o seu trabalho para vários formadores de opinião, blogueiros, estilistas de renome podendo avaliar e votar no seu negócio, sua ideia, seu projeto, poucos têm essa oportunidade, essa vitrine. A ideia é fantástica. Temos toda a estrutura para ajudar na formação dessas empresas, através dos produtos e serviços disponíveis pela nossa parceria com a Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais), juntamente com o sindicato, podemos ajudar com uma gama enorme de soluções para que esses jovens possam colocar suas ideias em prática e entrar no mercado, que é competitivo.

Acho a reforma trabalhista algo positivo. Sendo feitas boas negociações, preservando os direitos, mas estabelecendo regras mais claras, faz com que a relação de trabalho fique mais justa

A parceria com a Fiemg é essencial para que tudo isso aconteça?
A Fiemg acreditou desde o princípio na importância deste segmento, além do glamour que temos na moda, para o desenvolvimento industrial de Minas Gerais. É um segmento que gera renda, o segundo maior em geração de empregos no Brasil. Às vezes a gente discute com o governo, porque não é o setor que gera mais impostos. Fizemos, recentemente, um grande planejamento estratégico para ver o que mais podemos fazer e acredito que o sistema de comunicação do sindicato precisa ser ampliado para levar informação para as indústrias. No ano passado, conseguimos, junto ao governo do Estado, um regime de tributação especial para o segmento. Então, as empresas que buscaram foram atendidas prontamente e as que tiverem dificuldade podem nos procurar que iremos orientá-las. Um outro aspecto muito importante é que teremos agora, com a reforma trabalhista, a ideia do negociado sobre o legislado, quer dizer, as negociações coletivas serão fundamentais nas relações de trabalho, algumas, inclusive, superando a própria CLT. Ou seja, cada vez mais, teremos que ouvir a base, ver o que as empresas têm de demanda, qual é a realidade do setor em relação aos funcionários e fazer uma boa negociação coletiva que mantenha tanto as empresas competitivas quanto, obviamente, resguarde os direitos dos trabalhadores.

Seria esse então, o principal desafio hoje para o Sindivest, a adequação à reforma trabalhista?
Vejo a reforma trabalhista, para um segmento empregador como o nosso, de forma extremamente positiva. As pessoas colocam muito a preocupação da precarização do trabalho, da retirada de direitos, mas, na minha visão, não. Podemos dar benefícios para os nossos empregados, mas que isso também não vire um problema para as indústrias em um futuro. Um outro desafio que vemos são as estruturas fabris. Precisamos trabalhar mais para que as nossas empresas, que já têm um design, que possam também ter estruturas melhores. Para isso, estamos entrando com alguns programas para melhorar a produtividade das indústrias e competir no mercado globalizado.

A força dos chineses no mercado têxtil e fabril, incomoda muito a indústria mineira?
Já foi pior. Hoje, uma das situações que enfrentamos é não ter matéria-prima suficiente no Brasil para atender toda a criatividade e o design mineiros, aquilo que os estilistas querem trabalhar e levar de novidade para o consumidor. O que temos hoje são muitos tecidos importados. Um dos desafios é criar uma cadeia de fornecedores no país ou no próprio Estado para atender à demanda.