Convidado para participar da homenagem à atriz carioca Maria Gladys, feita na Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), há duas semanas, o diretor mineiro Neville D’Almeida, de 77 anos, não esconde a mágoa por não ver seus filmes na retrospectiva de obras tropicalistas, tema do festival deste ano. Mágoa é pouco para definir a irritação do realizador de “A Dama do Lotação” (1978), “Sete Gatinhos” (1980) e “Rio Babilônia” (1982), que jamais abandona o lenço amarrado no pescoço. A voz alta, para criticar os “moralistas” e “hipócritas”, chama a atenção na lanchonete ao lado da pousada onde o cineasta ficou hospedado. Ao fim da entrevista de quase uma hora ao Hoje em Dia, um dia antes de voltar para o Rio de Janeiro, onde reside, ele paga o café e distribui notas de R$ 10 às atendentes, prometendo voltar com mais no caso de ganhar na loteria. Esse é Neville.

Quarenta anos após o lançamento, ainda ostentando a quinta maior bilheteria da história do cinema brasileiro, “A Dama do Lotação” seria possível de ser feito hoje, com todas aquelas cenas de sexo de Sônia Braga, sem sofrer críticas feministas?
Não penso desta forma. “A Dama” é sobre a verdadeira mulher. Fiz um filme em que o personagem feminino domina, escolhe e tem um poder nunca visto no cinema. Uma mulher exercendo o desejo, a vontade. Acho que sou pioneiro. Se a pessoa olhar direito, com maior profundidade crítica, com uma visão que não seja preconceituosa, vai entender que não só “A Dama” como todos os meus filmes falam do poder da mulher. Essa coisa do empoderamento, que é uma palavra meio estranha, começou com o Neville. Vou dizer mais: o meu filme “Jardim de Guerra”, feito há 48 anos, tem o primeiro manifesto feminista da história do cinema brasileiro, na voz da personagem de Dina Sfat. O filme ainda se refere à guerra da Argélia, às mulheres que se engajaram na guerra e, depois que ela foi vencida, voltaram a ser escravas. Fiz também o primeiro manifesto sobre o poder negro. Não podemos esconder o sol com a peneira: não é agora que surge essa questão das mulheres, dos negros. Nós começamos isso, eu e Jorge Mautner, meu roteirista. Eu sei que a falta de informação das pessoas sobre Neville e o seu cinema leva a julgamentos errados, a desvios ideológicos. E por isso fazem comentários rasteiros, moralistas e hipócritas. Eu tenho que ser visto à luz da verdade, como um pioneiro dessas coisas todas do cinema. Agora é a hora de revelar tudo isso. É o momento de começar a fazer justiça a Neville e ao cinema.

Você se sente injustiçado por quem?
Está tendo um festival de cinema aqui (Ouro Preto). Falam de cinema marginal, mas eu inventei o cinema marginal. Falam do cinema experimental, mas eu inventei o cinema experimental. Os meus filmes foram proibidos. Seis deles. Eram mais avançados, no tempo e no espaço, filosófica, social e politicamente também. Os outros filmes, inofensivos, de Julinho Bressane e Rogério Sganzerla fizeram muito sucesso em plena ditadura militar. Em pleno AI 5. Eles não foram censurados, não incomodaram a ditadura. Não posso suportar as mentiras que historiadores de galinheiro fazem, principalmente nestes festivais, reduzindo a história a uma ou duas pessoas. Não se pode contar história pela metade, a partir do cabresto ideológico de críticos medíocres. Estou certo? Acho que estou certíssimo.

Por que estão lhe deixando à margem de momentos importantes da história do cinema?
Boa pergunta. Por que? Primeiro, talento incomoda. Mas, acima de tudo, porque a ditadura proibiu os meus filmes. Os filmes chapa-branca deram certo. A verdade é que a história é contada pelos vencedores, pelo ponto de vista da direita, da mediocridade e da desinformação. A história do cinema é um fake news. Como um filme proibido é esquecido e se celebra outro que agradou a ditadura? Eles eliminam você como eu fui eliminado, fazem um assassinato cultural por eu ter realizado filmes proibidos. Quem foi que se levantou para defender o Neville? Qual crítico? Qual historiador? Qual colega do Neville? Cadê? Nenhum. Acharam foi bom. Eu estou aqui para fazer justiça a tudo isso. Não vou aceitar nada disso. É uma injustiça muito grande comigo, com cineastas como Ivan Cardoso, Agrippino de Paula... E querem reduzir tudo a dois ou três. Estão aí fazendo seminário, falando de um ou dois que nunca defenderam os colegas. Isso é ser vanguarda, isso é ser marginal de quê? Eu tive que ensinar tudo para essa gente. Eu era melhor que eles, 100 vezes. Conheci Bressane quando ele fez “Cara a Cara”, um filme “caretérrimo” à beça. Naquela época, eu fiz “Jardim de Guerra”, um filme futurista, profético, premonitório. Teve mulher que “dava” para eles e eu não “comia” porque eu não queria misturar com aquela gente. Aquela mulher “deu” para eles todos, mas eu não “comi”. Eu não “como” mulher do Cinema Novo. Aquilo era muito ruim.

Neville D'Almeida

Ele criou, ao lado de Hélio Oiticica, a obra “Cosmococa”, que está no museu Inhotim

“Às vezes, passam cinco anos sem fazer uma venda (de ‘Cosmococa’). É de onde está vindo a minha renda. Cinema não me deu nada. Depois de inventar uma obra e entrar para história da arte contemporânea, hoje tem dois mil artistas imitando... Sou de Minas, cara. Comigo não tem moleza, não. Sou minério, que é mineiro duas vezes”


De onde veio todo esse talento? De Belo Horizonte?
Tudo é Belo Horizonte. Inventei a instalação audiovisual interativa e sensorial. Nunca imaginaria que iria ter uma obra no Museu de Inhotim. Queria muito que papai e mamãe estivessem aqui (pausa).... A história é o seguinte: nasci em BH numa família protestante, metodista. A primeira vez que saí de casa foi no colo da minha mãe para ir à igreja. Frequentei a igreja por 20 anos. Fui presidente da Sociedade Metodista de Jovens. Agradeço a Deus pelas coisas que aconteceram comigo. Tive a sorte de ler a Bíblia inteira, entre 12 e 14 anos, comentando-a e discutindo-a. Foi a coisa mais importante da minha vida. Todas as histórias estão na Bíblia. Você aprende a cultivar a inteligência. Fui para o Centro de Estudos Cinematográficos e para o Centro Mineiro Experimental, conheci os cinemas russo, italiano, francês, sueco, japonês, espanhol, americano, mexicano, brasileiro. Depois de ver os filmes, havia uma hora de debate. Acabava o debate, a gente parava na esquina para passar mais uma hora falando. Daí a paixão pelo cinema. Conheço tudo, vi tudo, li tudo. 

A Bíblia e o cinema forjaram o seu conhecimento...
E o TU (Teatro Universitário da UFMG). Aprendi tudo ali também. Estudei atuação e só não fui além por causa da mediocridade dos diretores brasileiros. Uma pessoa como eu era para ter sido convidada para 50 filmes. O medo, a covardia, a falta de talento e a bestialidade atrapalharam muito. Eu, ao contrário, chamei os melhores atores para os meus filmes. Depois eu saí de Belo Horizonte e fui morar nos Estados Unidos. Eu queria estudar cinema. Cheguei lá e entrei num curso livre em que o professor só falava de cinema americano. Eu, como um profundo conhecedor, falei: “Professor, e Bergman? E Eisenstein? Buñuel? Kurosawa? Jean Renoir? Visconti?”. O professor olhou para mim, espantado, e falou que só existe um cinema: o americano. Eu, fodido, magrelo, esfomeado e duro, respondi: “You’re wrong” (Você está errado, na tradução livre do inglês). O cara ficou apoplético. E disse mais: “Você não sabe nada de cinema”. Fui expulso, mas, naquele dia, eu entendi que eu tinha aprendido tudo em BH. Não tinha mais nada a aprender.

Em que momento entra Hélio Oiticica em sua vida?
Meu filme “Jardim de Guerra” foi proibido e jamais exibido. Se eu o passasse, eles o apreenderiam e me prenderiam. Passei numa cabine do laboratório Líder, onde estavam também o (poeta) Waly Salomão e uma pessoa que não conhecia, o Hélio Oiticica. Quando acabou, ele me disse que havia gostado muito de projeção de slides como linguagem. Disse mais: que nunca tinha visto pôster como linguagem. Num pôster, você pegava uma obra de arte e fazia um milhão de cópias. Ao invés de só um cara dentro do castelo, o mundo poderia ver (a obra). É a democracia da arte. Aí descobri que ele queria fazer cinema. E eu queria fazer arte. Naquele dia, conversamos a noite inteira. Chegamos a um conceito, em que a arte não seria para pregar em paredes e que iríamos fazer uma obra que unisse arte e cinema. Demoramos um ano e meio pensando sobre o que fazer, algo que nunca tivéssemos visto. Fizemos a Cosmococa, título que eu dei. É o cinema do futuro, em que você não senta em cadeira, mas deita no chão, rodeado por várias telas. Sete anos depois, o Hélio morreu (esfrega as mãos nos olhos)... Uma perda enorme. Fizemos aquilo tudo e nada aconteceu. Todo mundo tinha sido contra, achavam que era coisa de maluco. Para a gente não ser preso, concluímos que estava muito à frente no tempo e no espaço e resolvemos guardar. 

Quando a obra foi descoberta?
Foi descoberta 25 anos depois. Dois curadores da França e da Bélgica vieram ao Rio, após verem uma obra de Hélio em Londres e ficaram interessados. Chegando aqui, viram a extensão da obra dele e resolveram fazer uma exposição internacional. Estava em casa, fodido, quando tocou o telefone. Deus existe! Estava numa foda, meus filmes proibidos... Hoje, cada instalação de “Cosmococa” vale um milhão de dólares. Tem instalação nos Estados Unidos, na França, em Portugal, na Espanha, na Inglaterra, na Suíça, no México...