Quando calça o par de tênis, o maquinista aposentado Leles Raimundo Correa, de 65 anos, se transforma. Na verdade, depois de passar 30 anos confinado à cabine de um trem, onde chegava a ficar por mais de um dia inteiro sentado, ele se libertou quando começou a correr diariamente. O ex-sedentário virou atleta master. Leles Ultrapassou a barreira da idade para treinar pesado, acumular vitórias, medalhas e histórias de superação.

A primeira ocorreu há três anos. Por causa de um acidente doméstico que resultou em fraturas nos tornozelos, o aposentado ouviu uma sentença médica nada agradável: nunca mais voltaria a correr. Acostumado à nova rotina, que incluía atividade física diária e pelo menos 50 quilômetros de corrida toda semana, Leles não se abateu. Atualmente, ele treina para percorrer os 21 quilômetros da meia maratona de BH, no meio do ano. “Foram seis meses na cadeira de rodas e mais outros tantos de recuperação. Quando falavam que eu podia caminhar 15 minutos, eu andava 30”, confessa.

Eles merecem o pódio: atletas da maturidade mostram fôlego de dar inveja para vencer desafios

VOLTA POR CIMA – Leles abandonou o sedentarismo, marca registrada da antiga profissão, de maquinista, e recuperou a saúde e a forma física correndo

“Outro dia vi na televisão uma notícia sobre o Ironman e adorei aquele negócio”, relembra, mencionando a prova que reúne corrida, natação e ciclismo. Pensa que o aposentado se assusta? O desafio ele já tratou de anotar na agenda. 

Atleta dourado

O paulista Koji Teramito, de 79 anos, é outro exemplo de que idade nunca foi empecilho para o bem-estar. Descendente de japoneses, ele tinha um histórico no atletismo quando, aos 45 anos, teve o primeiro revés: um câncer no intestino. Na sequência, três infartos. Mal sabia ele que os “contratempos”, na verdade, seriam gatilho para uma espécie de recomeço. 

Koji é agora atleta de patinação de velocidade, diga-se de passagem, o mais velho da modalidade na América do Sul. Prestes a completar 80 anos, Koji representa o Brasil em torneios nacionais e internacionais voltados para esportistas com mais de 70 anos. "Após seis meses de treinos participei do Campeonato Brasileiro de Patinação de Velocidade e ganhei medalha de ouro na categoria”, comemora, relembrando a fase pós-cirúrgica. 

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79 ANOS - Paulista Koji Teramito representa o Brasil na patinação de velocidade 

O prêmio veio menos de um ano depois da cirurgia cardíaca, mesma época em que conquistou também medalha de prata no Campeonato Sul-Americano Master da modalidade esportiva. Recentemente, o patinador passou nada menos do que 3 horas e meia sobre as rodinhas, ao competir numa prova de velocidade, atingindo a façanha de percorrer 50 quilômetros em 60 minutos. 

De onde vem tanta energia e disposição? Koji Teramito responde comparando a própria vida e saúde física a um carro. Se usamos o combustível errado, chega uma hora em que uma ou outra peça acaba estragando”, diz, associando a alimentação desequilibrada e o excesso de peso aos problemas de saúde que já enfrentou. 

A partir de 15 de março, quando sopra velinhas, Koji passa a fazer parte da Seleção Brasileira Master categoria Gold acima de 80 anos. 

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No Guiness Book

Há um ano, a norte-americana Ernestine Shepherd, de 80 anos, passou por cima dos rótulos ao se tornar a fisiculturista com idade mais avançada do mundo e ser incluída no Guiness Book, o livro dos recordes. A atleta esconde por trás dos cabelos grisalhos uma rotina intensa de treinos, nada convencional para mulheres na idade dela, e hábitos alimentares irretocáveis. No perfil que mantém no Facebook, produz um diário virtual, onde descreve a dieta de 1.700 calorias – composta basicamente por clara de ovo, frango e legumes – e os hábitos físicos, dos quais fazem parte 16 quilômetros de corrida todos os dias, além de muito levantamento de peso, claro! Fã de carteirinha do ator Sylvester Stallone, que deu vida nos cinemas ao icônico lutador Rocky Balboa, ela diz: “Meu mantra continua sendo: determinação, dedicação e disciplina para ser fit. Essa é a mensagem que quero espalhar pelo mundo”, escreveu no perfil pessoal na web. 

Força, vitalidade e lição de vida dentro e fora da piscina

Antes de “se jogar” na vida de atleta é preciso que os aspirantes da terceira idade se preocupem com o chamado lastro fisiológico, que nada mais é do que a memória do organismo à prática (ou não) de atividade física. É esse histórico que dirá quais modalidades são mais adequadas para cada caso e também com qual frequência e intensidade deverão e poderão ser praticadas. 

O nadador Francisco Alves de Aguilar sabe tão bem disso que nunca ficou parado. Afinal, exemplo também é tudo. Mesmo após aposentar-se das salas de aula, onde ensinava contabilidade, continuou se dedicando a repassar conhecimento. Desta vez, nas piscinas. Hoje, aos 75 anos, concilia a carreira de nadador com a de técnico em um time master do Clube dos Oficiais da Polícia Militar de Minas Gerais, em Belo Horizonte. 

Pelo menos duas vezes por mês, o atleta participa, dentro das piscinas, de torneios nacionais, engordando a coleção de mais de 2 mil medalhas e troféus. “Somos movidos a água e cloro. A gente é muito apaixonado por natação, o que torna as competições e viagens muito mais prazerosas”, diz. 

Diretor-técnico da Run&Fun BH Assessoria Esportiva, o educador físico Paulo Santos reforça que treinos para pessoas com mais de 60 anos devem considerar não só a individualidade biológica como o objetivo de cada um. 

“Exercício físico envolve força, flexibilidade e condicionamento aeróbico. Sobretudo na terceira idade, quando há perda de massa muscular, é preciso observar esses três pilares para que não haja problemas não só musculares, mas o pior, cardíacos”, alerta.

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Vovô recordista

O canadense Ed Whitlock tornou-se o único homem do mundo com mais de 70 anos a correr uma prova de 42 km em menos de três horas. O ritmo intenso de atividade física que o estrangeiro de quase 86 anos imprime há anos é o grande responsável pelo excelente condicionamento físico do atleta da terceira idade. Ele garante que tem “a longevidade nos genes” e diz que correr é bastante prazeroso. “O verdadeiro sentimento de prazer é perceber que me saí bem e cruzei a linha de chegada”, diz. Cada novo ano significa uma oportunidade de quebrar um recorde. Até o momento, são nada menos do que 80 marcas mundiais em distâncias que vão de 1.500 metros a 42 quilômetros. Whitlock costuma treinar em um cemitério de Ontário, onde vive.