A Anglo American vive um dilema. A licença ambiental do Minas Rio precisa sair do papel no mês que vem para que a mineradora destrave a terceira fase do projeto, impedindo a paralisação das atividades e iniciando um investimento de R$ 1 bilhão em terras mineiras. O porte faraônico do complexo, que envolve o maior mineroduto do mundo (529 km), e constantes reuniões que devem ser realizadas com a comunidade, exigência do Ministério Público em decorrência de possíveis impactos nas cidades vizinhas a Conceição do Mato Dentro, no entanto, têm atrasado a obtenção do documento. O presidente da empresa no Brasil, Ruben Fernandes, é o entrevistado do Página 2 desta semana. Na Anglo American desde 2012, o executivo já foi diretor de Mineração da Votorantim Metais no Brasil e diretor de Operações da Vale Fertilizantes.

Qual a situação do Minas Rio hoje?
A licença estava prevista para julho, depois agosto, depois setembro…. O prazo, agora, é dezembro. O processo de licenciamento é complexo. O Minas Rio como um todo, aliás, é complexo. Pela dimensão, pelo tamanho, é uma mina muito comprida. É diferente das minas de outras empresas, que são mais redondas, por exemplo. A nossa tem 12,5 quilômetros de extensão e isso gera uma complexidade maior. E também sugere uma complexidade de licenciamento técnico maior. Além disso, contribuíram para os atrasos consecutivos os pedidos do Ministério Público e o adiamento de audiências públicas.

E se a licença não sair em dezembro?
Temos minério para operar nove meses no ano que vem. Ou seja, até setembro. E só. Sem a fase três, que será garantida pela licença, ano que vem não temos minério. Com a fase três são no mínimo 15 anos a mais.

Se a licença não sair nos próximos nove meses, a Anglo para?
Para, porque não terá minério para trabalhar. O prazo máximo para a licença sair, sem que haja interrupções no processo produtivo, é dezembro. Temos minério para operar até setembro. Se atrasar dois, três quatro ou cinco meses, teremos um período sem minério. E temos que pensar como fazer isso. Não adianta diminuir a produção. Fica inviável economicamente.


Vocês estudam um plano de demissões?
Não, não pensamos nisso. Até porque acreditamos que a licença vai sair. Mas, se não sair, estamos pensando em férias coletivas, por exemplo. Existem alternativas operacionais para lidar com a situação.

Se a licença não sair a tempo, como a empresa vai cumprir os contratos de longo prazo?
Teremos que renegociar com os clientes, postergar as entregas. O impacto não será só em Minas Gerais, será no mundo todo.

Quantos clientes a Anglo American tem hoje?
Entre 15 a 20 clientes.

Quem é cliente da Anglo?
Todas as grandes siderúrgicas chinesas. Tem pelotizadoras do Oriente Médio também, basicamente.

Como o atraso na licença impacta a rentabilidade da Anglo American?
O projeto Minas Rio carrega um custo fixo muito grande. Por isso, o volume para nós é muito importante. Porque a gente consegue diluir esse custo. Então, quando a gente cai de uma posição de 17 milhões de toneladas por ano para 14 milhões de toneladas ano, por exemplo, isso gera impacto no custo violento. Quando eu salto para 26 milhões de toneladas eu melhoro muito a rentabilidade da empresa. Mas temos que lembrar que quando o minério vai acabando, ele vai piorando. Por isso, nosso último balanço apresentou redução de 6%. E isso não é bom para ninguém. Menor produção, menor CFEM. Só de impostos gerados, entre ICMS, ISS e IRFM foram R$ 123 milhões de janeiro a setembro.

E se a licença sair? Qual o cronograma?
Se conseguirmos a licença, já começamos a retirar uma camada superficial de minério e estocar esse material. Deixamos lá porque só vamos usar quando a barragem for alteada e a infraestrutura construída. Depois, construímos o alteamento e quando estiver pronto pedimos a Licença de Operação (OP). Afinal, nessa etapa ainda não poderemos tocar no minério, só construir e preparar para a operação.

A Licença de Operação é mais rápida de conseguir?
Se cumprirmos as condicionantes direitinho, e é o que vamos fazer, o processo é mais rápido. Porque toda a análise técnica, de água, de supressão vegetal, tudo já foi feito. Da Licença Prévia (que integra a Licença Ambiental) para a LO, a empresa precisa cumprir as condicionantes.

Na sua avaliação, depois do rompimento da barragem da Samarco ficou mais difícil conseguir as licenças?
O processo está mais rigoroso, mas isso é importante para que a sociedade entenda que ali tem uma robustez técnica.

Qual o método construtivo da barragem que será alteada em Conceição do Mato Dentro?
Vamos altear a barragem a jusante. Isso é importante destacar. A Samarco aumentou a barragem dela a montante. A forma como a Samarco fez funciona também e nem cabe a nós falar sobre isso. Mas o alteamento a jusante é um método muito mais conservador. É mais caro e, também, mais seguro. Isso, porque você não utiliza rejeito para o alteamento. Utiliza só o compacto, que dá uma robustez muito maior à barragem. E você aumenta a estrutura para fora da barragem.

Quando começa o alteamento?
Assim que conseguirmos a licença. Agora, estamos na fase da Licença de Implantação (LI) e da Licença Prévia (LP). A LI nos permite iniciar o alteamento. Precisamos fazer esse alteamento para depois operar na fase três.

O que é a fase três?
A fase um terminou em julho do ano passado, a fase dois começou em seguida e termina ano que vem. A fase três é muito maior e é, simplesmente, autorização para acessarmos o minério. A gente não precisa investir em planta de beneficiamento, em porto, em mineroduto, em nada disso. É, simplesmente, o acesso à mina. Ela tem duração de 15 anos e começa assim que terminarmos as construções de infraestrutura. Se a licença sair em dezembro e começarmos em janeiro, terminamos em agosto do ano que vem. Aí, entramos com pedido de Licença Operacional.

Qual a importância da fase três para o projeto?
O Minas Rio está todo dimensionado para a capacidade nominal de 26,5 milhões de toneladas. Como a fase três nos dá acesso ao minério, sem ela não conseguimos chegar a essa capacidade. Este ano, vamos produzir 17 milhões de toneladas, abaixo da capacidade. E no ano que vem, menos que isso, pois o minério está exaurindo, está acabando. O que eu tenho falado é que não se trata de uma expansão do negócio. Se trata de uma continuidade.

Como assim?
Quando falamos de fase três, falamos da mesma mina que é explorada atualmente. Ela é comprida, tem 12,5 km. Hoje, podemos operar um pedaço pequeno dessa mina. Com a fase três, poderemos entrar na mesma mina, em uma extensão maior. O projeto inicial já previa essa extensão.


Quantos pessoas trabalham na mina?
São 1,6 mil empregados diretos só na mina e quase o mesmo terceirizados. São 4 mil no projeto todo.

E quantos empregos serão gerados?
Com a liberação da licença vamos precisar contratar mão de obra, porque a produção vai aumentar. Antes disso, durante as obras de alteamento e de diques de contenção, serão gerados mais de 800 postos de trabalho. Para a fase da exploração, serão contratados 120 fixos. Todos os postos serão abertos para pessoas da região.

Quando foi dada entrada no pedido de licença?
Em 2015. Mas é um processo longo mesmo. Foi necessário fazer todo o estudo de cavidades. Existem mais de 80 cavidades na mina e precisamos estudar uma a uma. E tivemos que comprar terras para compensar essas cavidades. Há, ainda, a questão da água, de fauna e flora. É um processo longo. Mas os atrasos que tivemos agora foram relacionados a excesso de reuniões públicas. Fizemos as reuniões, conforme foi pedido, interagimos com as comunidades. Fizemos uma audiência pública com 1,6 mil pessoas em julho em Conceição do Mato Dentro.
Depois, o MP pediu mais duas reuniões fora de Conceição do Mato Dentro. Parte da planta de beneficiamento está em Alvorada de Minas e nós temos uma interação grande com outras comunidades, como Dom Joaquim. Mais tarde, o MP pediu mais duas reuniões públicas para Dom Joaquim e Alvorada de Minas. Fizemos as reuniões, que foram menores, pois as comunidades são menores mesmo. Explicamos a questão construtiva. E esse é o papel da empresa mesmo.

O rompimento da barragem é o maior medo das comunidades?
Depois da Samarco é o maior medo sim. Fica uma questão emocional. E existe também um rigor muito maior dos órgãos ambientais.

Qual o teor do minério?
Ele tem um teor mais baixo, de 40%, e por isso a gente tem um processamento mineral diferente. Através desse processamento, conseguimos um teor mais alto e uma qualidade muito melhor. Custa mais caro fazer. No Norte, o teor supera os 60%.

É difícil encontrar mão de obra para trabalhar na empresa?
Sim. Para isso, desenvolvemos projetos sociais. Hoje, está em vigor um projeto em parceria com Senai, que formou 631 pessoas até hoje. Destes, contratamos 523. Este ano, vamos formar 90 pessoas. No ano que vem, mais 90.

Que tipo de curso é oferecido?
São cursos diversos. Entre eles, operador de equipamento de mina, soldador, eletricista, tudo que uma mina precisa.