Me lembro como se fosse ontem o dia em que meu grande amigo, Marcos José, ganhou o primeiro computador. Era uma máquina com processador Intel 386 SX, clock de 16 GHz, 2 MB de RAM e HD de 100 MB, no distante ano de 1992.

Diante daquela máquina de carcaça creme, monitor VGA de 14 polegadas e um incrível equipamento que reproduzia na tela os movimentos da mão (o mouse), nenhum de nós sabia como manipular aquele “monstro”, mas uma coisa era certa: queríamos criar um jogo – Street Formosa. Seria um híbrido de “Street Fighter II” (que tinha chegado aos fliperamas há pouco tempo) com a Rua Formosa, no bairro de Santa Tereza, onde o Marcos morava. 

Mas entre aquele 386 e o sonho existia um universo inacessível. Não havia softwares gráficos no mercado e, naquela época, nem Windows aquele computador tinha. Tentávamos enxergar alguma lógica no emaranhado de caracteres do MS-DOS. 

Hoje, quase 25 anos depois daquela ideia repentina de construir o “Street Formosa”, criar um game deixou de ser um devaneio e se tornou algo totalmente concebível, além de rentável.

A tecnologia de desenvolvimento se tornou mais acessível e os computadores se sofisticaram. Fabricantes de consoles oferecem kits de desenvolvimento e há até escolas para criação de jogos como a Saga, na avenida Afonso Pena, ao lado do lendário Café Nice, no Centro de Belo Horizonte.

Com dois módulos distintos: “Start”  que trabalha diversas ferramentas, conceitos de computação gráfica e “Game Play”, totalmente focado no processo de desenvolvimento de jogos, é possível sair de lá com “Street Formosa” finalizado, após 27 meses de estudos. 

De acordo com Bruno Oliveira, um dos professores da escola, o curso fornece aos alunos conhecimentos e fundamentos para a criação de qualquer jogo.

“Ensinamos os diferentes passos, que vão desde a concepção do game, passando pelo roteiro, caracterização dos personagens, dentre os diversos elementos que estão presentes. Ensinamos a desenvolver fase por fase”, garante Oliveira, acrescentando que dentre as disciplinas há um módulo de modelagem em argila – servirá de parâmetro para a fase de desenho no computador.

Desafios 

O processo de desenvolvimento é ainda mais complexo. “Um game que chega ao mercado levou pelo menos cinco anos para ser desenvolvido. É um processo longo, complexo, que une matemática com design, e demanda uma grande equipe”, observa o professor de conceitos de mecânica, Daniel Soares. 

Com 22 anos e formado em Design Gráfico, Hernann Forattini gosta de criar jogos. “Já criei diversos games de tabuleiro e cartas. Agora estou me aperfeiçoando em desenho em 3D para o desenvolvimento de meu próprio game. Meu sonho é me qualificar e ir para o exterior poder trabalhar na criação de um jogo para um grande estúdio”. 

Já Secília Carneiro, de 30 anos, passou pelas faculdades de publicidade, engenharia civil e de produção, mas descobriu que seu caminho para a felicidade é trabalhar criando jogos.

“Adoro games e sempre quis trabalhar nessa área e não tinha acesso e nem estrutura. Hoje é possível se desenvolver e obter experiência para buscar colocação nessa indústria”, planeja.