Feijão enriquecido com ferro e zinco. Milho, mandioca e batata-doce com dose extra de betacaroteno. Esses são só alguns dos produtos que vêm sendo transformados em verdadeiros superalimentos, graças à ajuda da biotecnologia. Atualmente, cerca de 20 mil brasileiros se beneficiam da biofortificação, técnica que, ao contrário da transgenia, não promove modificação, apenas melhoramento genético. A meta para os próximos dois anos é aumentar em 50 vezes o número de brasileiros com acesso aos produtos, literalmente, vitaminados. Em 2017, abóbora, trigo e arroz também chegarão à mesa das famílias mais carentes. O objetivo é ajudar a combater a desnutrição, a anemia e diminuir problemas nutricionais que afetam, principalmente, as populações de países subdesenvolvidos e em desenvolvimento.

Líder da Rede BioFort, projeto de biofortificação de alimentos desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a engenheira de alimentos Marília Nutti explica que a maior parte das cultivares, escolhidas pelo consumo alto, são plantadas por pequenos agricultores, consumidas pelas próprias famílias e distribuídas em escolas de comunidades rurais e indígenas.

A intenção é que até o fim de 2018 pelo menos 1 milhão de brasileiros tenham acesso aos superalimentos. “Damos preferência aos alimentos básicos, de fácil acesso e baratos. A ideia é aumentar a absorção de nutrientes que possam prevenir doenças”, detalha a pesquisadora. 

Em Minas, o melhoramento genético é realizado pela Embrapa Milho e Sorgo. Municípios como Juiz de Fora (Zona da Mata), Monte Carmelo (Alto Paranaíba) e Capim Branco (Central) já são contemplados, mas a multiplicação da prática depende da união de esforços, conforme o coordenador do projeto no Estado, José Heitor Vasconcellos. "Nosso maior problema tem sido as mudanças nas prefeituras. Mudou prefeito, saiu secretário, a parceria acaba. Estamos trabalhando com comunidades e universidades e nosso objetivo é ter mais multiplicadores”, afirma.

Processo

O melhoramento genético funciona assim: as cultivares são selecionadas e as mais promissoras seguem para laboratório. O objetivo é conseguir cultivares com alto teor de nutrientes, como ferro e vitamina A, boa produtividade, resistentes a seca e pragas, e boa aceitação no mercado. Uma quantidade pequena dos alimentos é entregue gratuitamente a agricultores, responsáveis por perpetuar a produção dos biofortificados e manter o abastecimento de comunidades e escolas. “Tudo isso com muito embasamento científico”, enfatiza Marília Nutti. 

No mundo

Pelo menos 14 países da África, Ásia e América Latina desenvolvem técnicas de melhoramento genético. O Brasil é o único que conduz, ao mesmo tempo, trabalhos com oito culturas diferentes: abóbora, arroz, batata-doce, feijão, feijão-caupi, mandioca, milho e trigo. 

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil conseguiu reduzir em 58% o número de mortes de crianças desnutridas e atingiu uma das 15 metas da Conferência Mundial de Alimentação, que era diminuir em 50% o número de desnutridos até 2015. 

Na Ásia, onde grande parte da população não tem acesso a frutas, verduras e legumes, a carência de vitamina A é a maior causa de cegueira em crianças. Já na África, quase 1 milhão sofrem de desnutrição aguda grave, conforme o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). 

Mais força no prato: alimentos melhorados geneticamente ajudam a combater a desnutrição

Enriquecimento chega aos produtos industrializados, mas uso exige cautela

Alimentos enriquecidos também estão cada dia mais presentes nas prateleiras dos supermercados. Leite e até bolacha recheada com adição de ferro e margarina com ômega 3 são alguns exemplos. 

Mas o que nem todo mundo sabe é que a suplementação não neutraliza características como o excesso de açúcar e de gorduras. Nesses casos, a dica é ficar de olho na composição original dos produtos e não consumi-los em excesso sob pena de comprometer o bom funcionamento do organismo. 

Diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a endocrinologista Maria Edna de Melo ressalta que a ingestão de alimentos enriquecidos é importante como forma de suplementar a alimentação diária, desde que haja cautela. “Esses produtos, especificamente, acabam trazendo um apelo nutricional que não é tão verdadeiro assim. No contexto geral, não são tão ricos nutricionalmente”, alerta. 

Importante destacar, porém, que determinadas adições acabaram se tornando obrigatórias, nos casos em que o enriquecimento contribui para corrigir deficiências nutricionais. Caso do iodo no sal de cozinha, para evitar o surgimento de bócio (papo), e de ácido fólico na farinha de trigo, para prevenir problemas na gestação, garantindo a adequada formação do feto. 

Conforme a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), alimentos enriquecidos ou fortificados são aqueles que receberam adição de um ou mais nutrientes essenciais, tais como vitaminas, minerais ou aminoácidos. O objetivo é reforçar o valor nutritivo na alimentação da população. 

Em geral, eles são bem absorvidos pelo organismo, mas alguns fatores auxiliam a assimilação dos nutrientes e outros podem até prejudicar. A absorção de ferro, por exemplo, é favorecida quando o alimento é consumido junto com outro que contenha vitamina C, como suco de laranja. 

Apesar de serem fiscalizados e monitorados pela Vigilância Sanitária, alimentos enriquecidos não precisam ter registro específico.

 

Saiba mais:

 

 

Cultivares Biofortificados

por

Marilia Regini Nutti1, Jose Luiz Viana de Carvalho1, Esdras Sundfeld1,

Graciela Vedovoto2, André Nepomuceno Dusi3.

Embrapa Agroindústria de Alimentos, 2Secretaria de Gestão e Desenvolvimento Institucional - Embrapa, 3Secretaria de Defesa Agropecuária - MAPA

 

A deficiência de micronutrientes como ferro, zinco e vitamina A constituem sérios problemas de saúde pública nos países em desenvolvimento. Dietas com escassez de ferro e zinco podem ocasionar anemia, redução da capacidade de trabalho, problemas no sistema imunológico, retardo no desenvolvimento e até a morte. Essas deficiências são também conhecidas como fome oculta. As fontes mais importantes de ferro para a população brasileira são feijão e carnes vermelhas. Embora a deficiência de zinco não seja tão estudada como a de ferro, considerando-se que os alimentos fonte destes dois nutrientes são os mesmos (sabe-se que fontes ricas em ferro biodisponível também são ricas em zinco biodisponível), é de se esperar uma alta incidência também para esta deficiência. A vitamina A é um micronutriente essencial para o bom funcionamento da visão e do sistema imunológico do organismo humano, sendo que sua deficiência tem provocado cegueira em milhares de crianças no mundo. Depois das crianças, as mães, as lactantes e os idosos são as principais vítimas da desnutrição.

 

A estratégia atual para combater a desnutrição nos países em desenvolvimento tem como enfoque o fornecimento de suplementos vitamínicos e minerais para mulheres grávidas e crianças, além da fortificação de alimentos. Entretanto, a biofortificação (processo de obtenção de cultivares com maiores teores de nutrientes) faz sentido como parte de um enfoque que considere um sistema alimentar integrado para reduzir a desnutrição. A biofortificação ataca a raiz do problema da desnutrição, tem como alvo a população mais necessitada, utiliza mecanismos de distribuição de alimentos já existentes, é cientificamente viável e efetiva em termos de custos, além de complementar outras intervenções em andamento para o controle da deficiência de micronutrientes. É, em suma, um primeiro passo essencial que possibilitará que famílias carentes melhorem de uma maneira sustentável, sua nutrição e saúde.

 

 

O programa de biofortificação de alimentos na Embrapa, denominado Rede BioFORT, conduzido há mais de 10 anos, utiliza métodos convencionais de melhoramento genético, portanto, dos materiais desenvolvidos até o momento, não há materiais geneticamente modificados (não há transgênicos). O foco do projeto é em alimentos básicos na dieta da população como arroz, feijão, feijão caupi, mandioca, batata-doce, milho, abóbora e trigo. São avaliadas as dimensões de receptividade dos produtores nas comunidades rurais em relação as novas cultivares, os ganhos nutricionais, a aceitabilidade pelo consumidor, as vantagens agronômicas e comerciais.

 

A Rede BioFORT engloba 16 Unidades Decentralizadas e 3 Unidades Centrais da Embrapa, com atividades de pesquisa, melhoramento, multiplicação de materiais, transferência de tecnologia e avaliação de impacto. Participam ainda da rede, 17 Universidades e Institutos de Pesquisa, com atividades em ciências agrárias, ciências e tecnologia de alimentos, nutrição e desenvolvimento de embalagens. São 20 Instituições Estaduais, com apoio em infraestrutura para atividades em multiplicação de materiais, extensão rural e transferência de tecnologia e 22 Prefeituras e instituições municipais no apoio a atividades de multiplicação de materiais e transferência de tecnologia. O projeto conta ainda com o apoio de associações, cooperativas e sindicatos, para multiplicação de materiais e de empresas privadas para assistência técnica. Cerca de 13 instituições internacionais colaboram com a rede BioFORT em atividades de pesquisa nas áreas de ciências e tecnologia de alimentos, ciências agrarias e ciências da saúde. No total, Mais de 100 parceiros atuam junto com a Rede BioFORT, demonstrando o envolvimento da rede com os diferentes setores da sociedade.

 

Uma questão importante no processo de produção, especialmente de materiais biofortificados, é a qualidade do material de propagação. A recomendação é de que se usem sementes ou mudas certificadas. Isso porque é importante que sejam asseguradas as suas qualidades genéticas e fitossanitárias. O uso de material próprio de propagação, multiplicado pelo produtor a partir de sementes certificadas é permitido pela legislação. Entretanto, para que sejam mantidas as características originais, é preciso que sejam seguidas regras específicas para cada espécie, o que pode ser difícil no caso de pequenos agricultores, como isolamento geográfico ou época de produção. Dessa forma, mesmo que o produtor guarde parte de sua produção para uso no plantio na safra seguinte, recomenda-se que sejam adquiridas sementes e mudas certificadas periodicamente. O período para renovação desse estoque depende da espécie e das condições de cultivo nas áreas de produção. Para materiais de propagação vegetativa, como mandioca e batata-doce, a questão fitossanitária é a mais relevante e especial atenção deve ser dada para que a produtividade do material não seja perdida ao longo de sucessivas multiplicações sem renovação do material de propagação. No caso de milho, espécie de polinização aberta, a proximidade geográfica e temporal com outras cultivares irá propagar características genéticas de outras espécies à produção, inviabilizando seu uso como semente na safra seguinte.

 

Concluindo, esforços significativos têm sido realizados ao longo dos últimos dez anos, para desenvolver e distribuir cultivos biofortificados aos agricultores no Brasil, onde 11 cultivares foram desenvolvidas com maiores teores de ferro, zinco ou pró- vitamina A e lançados desde 2005. Cerca de 120 unidades demonstrativas foram implantadas, atingindo 5.000 famílias (média de 20.000 pessoas), com a distribuição, plantio e difusão de cultivos biofortificados. Faz-se necessária a continuidade desta pesquisa e trabalho para alcançar o objetivo final de melhorar a qualidade de micronutrientes em cultivos básicos consumidos por pessoas carentes de recursos no Brasil. Mais ainda, será sempre oportuno a ampliação do debate público e o fornecimento de esclarecimentos sobre a biofortificação para distintos segmentos sociais, assim como para construção participativa de políticas públicas consistentes sobre o tema no país.