Por ano, 1,3 bilhão de toneladas de comida é desperdiçada no mundo

REAPROVEITAMENTO - Comida que vai para o lixo em um dia, no Brasil, alimentaria a população de Angola durante 24 horas

Todos os dias, os belo-horizontinos jogam no lixo mais de 500 mil quilos de comida que, de alguma maneira, poderia ter sido aproveitada. Fruto de um conjunto de fatores, que inclui armazenamento incorreto e compras mal planejadas, o desperdício impacta não só no nosso bolso: reflete também na qualidade de vida e no equilíbrio do meio ambiente. 

Antes de chegar, ou não, à mesa, itens descartados porque passaram da validade ou simplesmente por não agradarem mais aos olhos consumiram água, adubo, aditivos químicos e mão de obra. E mais do que isso: durante a decomposição, irão produzir os dois principais gases responsáveis pelo efeito estufa e, portanto, pelo aquecimento global.

Conforme a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), se fosse um país, toda essa comida jogada fora se juntaria à China e aos Estados Unidos e se tornaria o terceiro maior emissor de carbono do mundo.

“Alimentos descartados por nós em sacos de lixo vão parar em aterros e produzem gases nocivos ao meio ambiente”, explica a bióloga Fernanda Wasner, doutora em ciências e professora do Centro Universitário Una, em Belo Horizonte.

Ela admite que mudar hábitos é um desafio gigantesco, mas lembra que é preciso começar – e dentro de casa. Planejar as compras, evitar ir ao supermercado quando estiver com fome, organizar a dispensa possibilitando o controle de tudo e otimizar o uso dos alimentos por completo atenuam o desperdício. 

Para se ter uma ideia, somente no Brasil descarta-se-se mais do que é necessário para neutralizar a insegurança alimentar no país. No mundo todo, 1,3 bilhão de toneladas de comida é desprezada anualmente. “Ainda se tem uma visão muito assistencialista sobre o desperdício de comida. De que precisa ser combatido, pois tem gente passando fome. A questão é muito mais ampla”, diz a gerente de Campanha do Instituto Akatu, Gabriela Yamaguchi.

Para o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Antônio Gomes, não bastam políticas públicas. “É preciso discutir com todos os atores: de produtores a consumidores. Caminhamos para isso, mas a passos muito lentos. Se não resolvermos agora, correremos um risco sério de desabastecimento”, diz. 

Iniciativas de combate ao desperdício em outros países:

Itália – Em agosto deste ano, o Senado italiano aprovou um projeto de lei que tem como objetivo poupar 1 milhão de toneladas de comida por ano. Isso significa uma economia de cerca de 12 bilhões de euros, anualmente, ou o equivalente a 1% do PIB do país. Cada italiano joga no lixo, em média, 76 quilos de alimentos por ano. Pelo projeto, alimentos não descartados seriam doados a populações vulneráveis. Atualmente, 20% dos italianos estão desempregados e milhões, na pobreza. 

França – Recentemente, os franceses também aprovaram uma lei que proíbe o desperdício de alimentos. Agora, donos de estabelecimentos com mais de 400 metros quadrados são obrigados a assinar contratos de doação para instituições beneficentes, do contrário podem pagar multas de até 75 mil euros e pegar até dois anos de prisão.

Dinamarca – Um grupo de dinamarqueses desenvolveu um aplicativo que permite a venda das sobras de comida de restaurantes. Too Good To Go (Muito Bom para Ir Embora) mostra o cardápio e cobra entre 2 e 3,80 euros por marmita. Além de ajudar os restaurantes, que recebem por algo que iria para o lixo, a tecnologia fornece comida boa e barata aos clientes. O app é usado em a mais de sete países e, em seis meses, evitou a emissão de 200 toneladas de dióxido de carbono na atmosfera.

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