Meninos que brincam de boneca sem se preocupar com a reação alheia, crianças que se comportam com naturalidade diante de uma pessoa com deficiência ou cuja cor de pele é “estranha” a elas. Estar lado a lado com a diferença, seja ela qual for, é cada vez mais comum. Mas ensinar os pequenos a encará-la com respeito e tolerância ainda é um desafio para muitos pais. 

Educar para a diversidade exige atenção e é uma tarefa que precisa começar cedo, dentro de casa. Proporcionar um ambiente com vivência ampliada e abordar as curiosidades típicas do universo infantil na hora certa e sem tabus são pontos importantes para traçar um caminho mais humano e sensato. 

No lar do casal de atores Cris Moreira, de 32 anos, e Rogério Araújo, de 38, por exemplo, não há distinção entre as atividades de mãe, pai e filho. “O João participa de tarefas que, naturalmente, são atribuídas à mulher. Ele lava louça, arruma a cama e limpa o que sujou. Assim, consegue compreender melhor que o ambiente doméstico não é de um só, mas de todos”, conta Cris sobre a rotina do filho único que, aos 8 anos, usa roupas cor de rosa quando quer e brinca de boneca com bastante naturalidade. “A riqueza da diversidade é ver a humanidade de cada um. Para além da cultura, da religião, do status, da classe, existe um ser humano”, diz o pai do garoto.

 

Respeito vem de casa

TODOS IGUAIS – João brinca de boneca e divide as tarefas de casa com os pais, Rogério e Cris

De perto

Na casa de Pedro, de 7 anos, e Duda, de 6, a pluralidade é vivenciada ainda mais de perto, e o tempo inteiro. Eles são irmãos biológicos e filhos adotivos da professora universitária Regina Helena Alves da Silva, de 59 anos, e da psicóloga Sílvia Esteves, de 54, casadas há 12 anos. Apesar de fazerem parte de um núcleo que não se encaixa no modelo tradicional de família, as crianças vivem “dentro da normalidade”. 

“A gente não os cria em um mundo afastado ou afastados do mundo. Existem referências, como a figura de um homem, o padrinho, por exemplo. Nosso cuidado, no entanto, é mostrar que o que importa mesmo é a segurança que o núcleo familiar oferece”, reforça Regina. 

Ela conta que questionamentos sobre o pai, por exemplo, costumam ser influenciados pelo ambiente externo, principalmente na escola. Mas nada que uma conversa sincera não resolva. “Falamos a verdade. As crianças se tornam adultos tolerantes não pelo contexto em que vivem, mas pela educação que recebem”, diz a professora.

"Ensaio"

O empresário Pedro Maciel Filho, de 43 anos, e o marido dele, o dentista Janderson Lima, de 38, que vivem em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, também vêm “ensaiando” a forma como irão orientar os filhos para agir sem estranhamento diante do que lhes parecer diferente, inclusive a própria realidade. 

O casal ficou conhecido no Brasil todo após se tornar pai das gêmeas Luísa e Valentina, de 2 anos, e de Vítor, de 1 ano e 10 meses, gerados por duas tailandesas contratadas como barrigas de aluguel. “O ser humano nasce muito puro, nós é que dificultamos as coisas. Ensinar e aprender são consequências naturais. As gerações de hoje têm outra cabeça e transitam com mais facilidade pela diversidade, graças ao acesso à informação”, comenta Pedro. 

Crianças começam a notar diferenças a partir dos 3 anos 

O ambiente escolar é também um importante instrumento de educação nesse aspecto, principalmente na primeira infância. É na convivência diária, em sala de aula, que as crianças se tornam aptas a reconhecer as diferenças do outro, compreendendo a importância de respeitá-las e aceitá-las. 

Para a psicóloga clínica Nira Kaufman, especialista em educação especial inclusiva, o “segredo” é deixar de abordar as diferenças como um problema, tratando-as como parte da vida comum. Ela acredita, ainda, que as questões ligadas a gênero têm ocupado cada vez mais espaço nas discussões, devendo ser tratadas com sinceridade, mas nunca pautadas pelo “certo e errado”. 

Na casa da advogada Gabriela Sallit, de 37 anos, é exatamente assim. Despida de qualquer preconceito, ela nunca privou os filhos, João, de 4 anos, Francisco, 2, e Antônio, de 6 meses, de se relacionarem com intimidade e naturalidade com o primo Samuel, que é homossexual. 

Respeito vem de casa

SEM TABUS – João nunca foi privado da convivência com o tio, Samuel, que é homossexual

“Nós o amamos e não fazemos distinção nenhuma, de nada. Quero dar aos meus filhos argumentos para que enfrentem a intolerância e encontrem o próprio caminho. Para isso, eles só precisam ter uma base sólida, que os torne pessoas humildes e capazes de olhar para o outro com empatia”, diz.

A psicóloga e pedagoga Marina Pongelupi explica que, a partir de 3 anos, as crianças se abrem para o mundo. “Começam a perceber diferenças no cabelo, no pé, na cor, o que tem ou não na família do outro”. O importante, segundo ela, é não silenciar-se em torno de temas que são tabus. “A construção dos conceitos deve ser provocada e a criança, estimulada a criar suas próprias percepções”, afirma. 

Liberdade para vestir

Recentemente, o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, virou polêmica nas redes sociais por acabar com a distinção entre uniformes de meninos e meninas. A instituição divulgou uma portaria em que ressaltava a obrigatoriedade do uniforme, mas dando liberdade para que os alunos escolhessem as peças com que mais se identificassem, independentemente do gênero. Segundo a escola, o objetivo não era induzir ou obrigar ninguém a usar determinado tipo de vestimenta, mas ampliar os direitos das minorias que fazem parte do quadro de estudantes. A portaria foi resultado de um processo que começou em 2014, quando os estudantes do colégio fizeram o primeiro “saiato”. Na época, meninos e meninas foram à escola usando saias. No ano passado, o colégio também decidiu usar a letra “x” em avisos institucionais e cabeçalhos de provas para suprimir os gêneros dos substantivos no plural, como “alunxs” no lugar de “alunos”.