Ambiente favorável à diversidade de gênero ainda é tabu nas empresas brasileiras. Boa parte das companhias fecha as portas para as minorias na hora de contratar, sobretudo quando se trata de transexuais. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), praticamente a totalidade deste público no Brasil recorre à prostituição para sobreviver devido à falta de oportunidades no mercado formal de trabalho.

Outro dado relevante: em 2015, um levantamento da companhia Elancers, que atua com seleção e recrutamento, mostrou que 38% das empresas brasileiras não contratariam funcionários assumidamente LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) para cargos de chefia. Outros 7% afirmaram que candidatos dessa parcela da população não seriam contratados em hipótese alguma. 

“Uma vez fiz uma entrevista numa empresa de ônibus em BH e fui aprovado em todas as etapas”, conta o estudante universitário e auxiliar administrativo no campus da Faculdade de Direito da UFMG Nathan Silva Rodrigues, de 25 anos. “Quando expliquei a minha situação e contei que era trans, tive a seguinte resposta: ‘seu currículo é ótimo, mas não contratamos esse tipo de gente’”, diz, relembrando o sofrimento causado pela recusa da empresa. 

O atual emprego, diz ele, foi assegurado graças à aparência masculina. Em outras experiências negativas, a incompatibilidade entre o nome nos documentos e a forma como se apresentava causou problemas e constrangimentos.

“Procuro emprego da mesma forma que todas as pessoas, levando meu currículo. O que acontece é que em qualquer lugar onde a gente vá, as pessoas nos veem como uma coisa de outro mundo”, desabafa João Maria Kaisen, de 25 anos. 

Desempregado desde que deixou a função de cozinheiro em um restaurante, João Maria está no início do processo de modificação das características corporais e também luta contra o preconceito para encontrar uma nova vaga. 

Enquanto o emprego fixo não vem, o rapaz faz bicos como artesão e garçom para dividir as despesas da casa onde mora com um amigo. Quando questionado sobre as dificuldades de empregos para os transexuais, João reclama da falsa sensação de tolerância que vigora no país. “Até mesmo nas empresas que dizem aceitar o direito básico ao nome social, isso não é de verdade. A inclusão não funciona”. 

Lei

Diferentemente do nome de batismo, o nome social é a identificação pela qual os transexuais preferem ser chamados no dia a dia. No Brasil, ser reconhecido pelo nome escolhido é um direito garantido por lei, inclusive nas repartições públicas. Em Minas, decreto sobre o tema foi publicado no início deste ano. Os órgãos estaduais têm prazo de 180 dias para promover adaptações, capacitações e regulamentações necessárias para implementá-lo. 

O Brasil é o país onde mais morrem transexuais; em seis anos foram 604, segundo pesquisa da ONG francesaTransgender Europe

‘É preciso receber bem o novo’, alerta especialista em RH

A boa notícia é que, ao menos em algumas empresas brasileiras, a realidade do preconceito e da intolerância ao diverso tem cedido espaço ao respeito e à receptividade. Com escritórios em Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre e Recife, a ThoughtWorks tem como um dos pilares advogar em favor da justiça social e econômica. Para isso, a companhia de consultoria tecnológica não só apoia como prioriza a contratação de todo tipo de candidato, sem distinção, garante a recrutadora da empresa Tatiana Kubotani. “Ter diversidade nos ajuda a construir um produto melhor”, avalia.

Há seis meses na filial da capital mineira, onde atua como administradora do escritório, Laura Zanoti, de 30 anos, é exemplo de que ser bem recebida como transexual no mercado de trabalho brasileiro depende muito mais do empregador do que do próprio candidato. "A sociedade expressa preconceito o tempo todo, na hora da contratação e ao lidar com as pessoas. É muito difícil encontrar empresas dispostas a mudar a cabeça dos funcionários e criar um ambiente seguro para nós. No capitalismo, as empresas não estão preocupadas com a igualdade social ou de gênero, e a mulher trans, principalmente, ainda é totalmente criminalizada”, avalia. 

 

Preconceito na fila do emprego: diversidade de gênero ainda é tabu em muitas empresas brasileiras,

BEM COLOCADA – Laura trabalha em uma empresa que respeita e valoriza a diversidade: “aqui não há distinção de nada”

Em um emprego anterior, Laura precisou esconder por quatro anos a mudança de gênero para ser respeitada e “segurar” a vaga. “Tinha dupla identidade, mas, para sobreviver e pelo salário, a gente acaba aceitando determinadas situações”, lamenta.

Para a presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos em Minas Gerais (ABRH-MG), Eliane Ramos, a contratação de um profissional, independentemente das escolhas pessoais que ele faça, deve ser pautada pela competência e capacidade de entrega. 

“Vivemos em um mundo globalizado em que há lugar para todos. Se o profissional é engajado, dedicado e tem características comportamentais interessantes para aquela vaga, não há porque não contratá-lo. É preciso receber bem o novo e saber que pessoas diferentes também agregam”, afirma. 

96% foi quanto aumentou o número de denúncias de violação de direitos da população lbgt no brasil, em 2014 e 2015, de acordo com o disque 100

De onde vem a ajuda?

- As vereadores de BH Áurea Carolina e Cida Falabella, ambas do PSOL, lançaram chamada pública para recrutar candidatos a cargos em seus gabinetes. Integrantes de um coletivo de ativistas de direitos sociais, elas darão prioridade às minorias, incluindo deficientes, egressos do sistema prisional e LGBTIQs (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, intersexuais e queers). O processo levará em conta capacidade técnica, experiência profissional e diversidade social, buscando manter a paridade entre gêneros e raças. 

- Criado há um ano na capital, o Transvest foi também alternativa encontrada pelo professor Eduardo Salabert para apoiar a população trans. O cursinho, que funciona no Edifício Maletta, no Centro, oferece aulas diárias de idiomas, libras, além de supletivo e pré-vestibular. Os profissionais são voluntários e as aulas, gratuitas. “O Transvest surgiu para oferecer uma pedagogia diferenciada. O trabalho voluntário é o melhor combustível para a transformação social”, diz o idealizador do projeto. 

- O site transempregos.com.br ajuda tanto quem deseja contratar quanto quem quer ser contratado. Atualmente, segundo a realizadora da plataforma, Márcia Rocha, há 800 transexuais com currículos cadastrados em busca de vaga. Desde que foi criada, em 2015, a página ajudou a colocar 80 profissionais no mercado. “Temos um retorno muito positivo de empresas satisfeitas com a competência dos contratados. Em março, o site terá uma cara nova e tradução em 12 línguas”, adianta. 

90% dos transexuais que vivem no brasil recorrem à prostituição para sobreviver, conforme estimativa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais