Reduzir despesas e otimizar receitas. Esses são desafios da Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig), de acordo com o presidente da instituição, o administrador Tarcísio Dayrell. Aos 47 anos, o técnico especialista em gerir centros de saúde garante que existem formas de avançar em meio à crise econômica vivida em todo o país. Em entrevista ao Hoje em Dia, o gestor, que está há 10 meses no cargo, falou sobre os problemas e as soluções para a maior rede de saúde do Estado. 

A Fundação Hospital de Minas Gerais (Fhemig) faz 4.900 internações por mês nas 21 unidades hospitalares. De acordo com a administração, existem 2.078 leitos disponíveis. 

Nesse curto tempo de gestão, quais foram os principais desafios encontrados?
Atuar diante do momento econômico do Estado e do país. A área da saúde está entre as mais citadas por causa das dificuldades financeiras, da falta de investimento e das ações necessárias que têm que ser feitas. Tenho observado e trabalhado para colocar criatividade e experiência dentro da gestão da Fhemig e, assim, reduzir algumas despesas e aumentar receitas e produção. É um grande desafio fazer com que as nossas unidades sejam mais produtivas e gerem resultado melhor, não só financeiro como assistencial. Esse setor na Fhemig precisa ser visto como fator primordial da nossa gestão e também envolvendo o nosso corpo de servidores com esse olhar humano. 

A crise afetou financeiramente a rede?
Sim. Os recursos não foram mantidos porque o Estado não consegue nos repassar o valor em virtude da crise e do estado de calamidade pública financeira pelo qual vem passando. Em contrapartida, estamos fazendo outros trabalhos para complementar a renda dos hospitais. Um deles é a cobrança de dívidas dos municípios. Para nós, é um recurso que viabilizaria a melhora das nossas unidades, e esse problema persiste desde 2014. Então, acoplado a essa vontade de fazer algo enquanto gestor, estamos nos movimentando, afinal, sem dinheiro não consigo resolver problemas. Preciso, então, de duas ações: planejar com o recurso que tenho, visando sempre as prioridades, e tentar complementar essa diminuição de recursos do Estado com outras receitas. E esse é o grande gancho que temos para não deixar que a crise afete o atendimento. As pessoas podem até sentir falta de uma coisa ou outra, mas o básico para a assistência não falta. O nosso planejamento está no sentido de não faltar o que é necessário para assistência. As dívidas com outros municípios revelam uma outra característica da Fundação: o atendimento amplo de outras cidades fora até da área de atuação da rede. Muitos pacientes vêm mesmo de outras cidades. Principalmente em casos extremos, como foi com a tragédia de Janaúba, no ano passado. 

Como lidar com esse atendimento além da demanda prevista?
Janaúba foi um exemplo de que nós estamos preparados, no João XXIII e em toda a rede, para receber um grande número de pacientes com necessidade extrema. Nós temos essa preocupação de estarmos preparados assistencialmente e financeiramente para atender essas pessoas. A febre amarela é outro exemplo. A nossa unidade do Hospital Eduardo de Menezes está com 16 pacientes no CTI em estado grave. Ao todo, são 67 pacientes internados. Todos oriundos de municípios mais distantes, incluindo Barbacena e Juiz de Fora, na Zona da Mata, cidades que estão com casos da patologia. A rede dá um suporte para a saúde no Estado inteiro. A Fhemig tem uma grande importância para a saúde pública de Belo Horizonte, do Estado e do país. 

Quais investimentos serão feitos? Haverá alguma melhoria de infraestrutura e ampliação de leitos?
Dentro da linha da Fhemig, temos agora investimentos em vários espaços. No Hospital de Pronto-Socorro (HPS) João XXIII, novos equipamentos chegam para dar melhor suporte aos servidores. Dentre eles, um tomógrafo que será entregue no fim de março ou início de abril. Monitores, desfibriladores e itens de mobiliário também serão adquiridos para estruturar o ambiente para paciente, médico e servidor. O nosso triângulo de prioridades é esse: paciente, servidores e a instituição. No Hospital Infantil João Paulo II já investimos mais de R$ 1 milhão na melhoria da estrutura física, rede elétrica, monitores e incubadoras. Já no Júlia Kubitschek, adquirimos arcos cirúrgicos, sistema de vídeo endoscopia, endoscópios e liberaremos uma obra de adequação dos ambulatórios e do CTI, que estava parada, para crescimento dessa unidade. Na Maternidade Odete Valadares, estamos investindo em monitores e autoclave. Os investimentos continuam mesmo diante da crise, porém, em menor valor, priorizando o que é necessário.

O déficit de leitos é um problema geral em todo o Brasil. Como isso tem sido tratado na Fhemig?
Já temos mapeadas quais são as unidades que têm a necessidade de ampliação de leitos e nessas unidades faremos um trabalho para conseguir esse aumento. No Hospital Infantil João Paulo II, por exemplo, a necessidade foi detectada e faremos lá a ampliação da área física para comportar um número maior de pacientes. No Hospital Regional João Penido, em Juiz de Fora, já foi autorizada a mesma ampliação. O CTI do local ainda é limitado e estamos ampliando com cerca de R$ 650 mil para, pelo menos, fazermos as ampliações já autorizadas pelos órgãos legais. Não podemos ficar parados sabendo que há a necessidade de ampliação e melhoria em determinados setores. 

No Hospital de Pronto-Socorro João XXIII haverá alguma intervenção? 
Lá, não. O que será feito serão adequações físicas em espaços de enfermaria, por exemplo, para liberação de espaço. Essas áreas, até então, não estavam sendo utilizadas em sua integralidade.

Fazendo uma análise geral da saúde no Brasil e em Minas Gerais, como o senhor vê as possibilidades e soluções para esse segmento, que mesmo com os investimentos, é sempre alvo de reclamações das pessoas?
A grande solução é cada um dos atores, município, Estado e União, fazer o seu papel. Este será o grande diferencial. Nós da Fhemig, que somos Estado, estamos fazendo o nosso. Citei no início que, apesar de toda dificuldade financeira, estamos movimentando algumas ações para a melhora assistência. E assim, acho, que todos têm que fazer. O município atender bem nas unidades básicas, o governo federal atuando nas liberações de recursos. Cada um desses três atores se mobilizando para a necessidade assistencial é uma boa receita.