Muita gente relaciona a aposentadoria ao fim de uma vida economicamente ativa e ao temor de consequentes dificuldades financeiras, que, por vezes, não permitem usufruir do que foi semeado ou sonhado por anos. Para evitar isso é preciso preparar bem cada passo. Erro mais comum é deixar a programação para última hora. 

Escritor e consultor organizacional, o neuropsicólogo Eduardo Shinyashiki lembra que é fundamental edificar um caminho. “Permita-se construir a vida que você merece antes de aposentar-se, para que ela seja consequência das realizações pessoais e não de uma jornada que se baseou em fazer o que precisava ser feito”, afirma.

“Manter-se ativo não significa só realizar atividades que geram renda, mas manter relações que sustentam a saúde mental”
Celso Braga
Psicólogo e sócio-diretor do Grupo Bridge

A dica número um vem do psicólogo Celso Braga, sócio-diretor e fundador do Grupo Bridge, voltado para soluções em desenvolvimento humano e organizacional: é preciso turbinar as finanças! “Um pouco de dinheiro que se preserve no início da carreira profissional vai fazer muita diferença ao longo dos anos”, afirma. 

Segundo ele, é possível, ainda, conciliar o merecido descanso à manutenção de uma vida economicamente ativa, mesmo após a primeira baixa na carteira de trabalho.

“Nossa população envelheceu mais nos últimos anos e precisamos repensar a forma como iremos absorver essa mão de obra. O trabalho não precisa ser somente braçal, mas pode concentrar-se no conhecimento e no poder de decisão dos cabeças”, analisa. 

Mais ativos

Consultora em Desenvolvimento de Pessoas, Tânia Zambelli lembra ainda que há uma tendência crescente de que, mesmo após aposentar-se, os brasileiros continuem ativos, inclusive em negócios próprios.

“Alguns terão o descanso merecido e a vida que sonharam. Outros vão viver a consequência de um mau planejamento”
Eduardo Shinyashiki
Consultor organizacional

“Vale buscar o aperfeiçoamento e focar nos estudos. Só assim é possível construir uma imagem profissional respeitada, independentemente de ter 50, 60 ou 70 anos”, ressalta a especialista, acrescentando que para os competentes sempre há espaço, seja nas empresas, seja empreendendo. 

“Tenho uma história bacana de um executivo que parou de trabalhar, mas passou a repensar um sonho antigo de ser jogador de futebol. Uniu a expertise em gestão ao desejo de manter-se ativo e montou uma escolinha de futebol”, comenta Zambelli. 

Mais do que preservar a função social, no Brasil muito associada ao trabalho, a estratégia, reforça o psicólogo Celso Braga, mantém a saúde da mente. 

“Tirar as relações da pessoa compromete a saúde mental dela, que começa a apresentar angústia e depressão. Estar ativo é manter vivos os relacionamentos pessoais, estar atualizado”, afirma. 

Descobrir os prazeres da nova rotina traz satisfação pessoal

Assim como toda regra tem sua exceção, num país onde apenas 1% dos aposentados conseguiram, de fato, pendurar as chuteiras e conquistar autonomia financeira, há quem tenha se permitido engavetar a carteira de trabalho e desfrutar da – temida por muitos – “vida de aposentado”.

Longe das salas de aula há sete anos, quando aposentou-se do segundo emprego, a professora Zilá Rosário dos Santos jamais pensou em retornar ao mercado de trabalho. Mesmo porque, garante, embora não tenha se preocupado tanto em organizar as finanças visando à aposentadoria, dinheiro não passou a ser problema. 

“Sempre fui organizada e, com o fim do trabalho, alguns gastos deixaram de existir. Fiz questão de dedicar tempo às coisas de que realmente gosto. Cuido da minha casa, vou ao cinema toda semana, saio com as amigas e pratico atividade física diariamente”, detalha a aposentada, que concilia a rotina ao hobby de pintar quadros e às viagens que consegue fazer, agora, com mais frequência, sem precisar esperar as férias. 

Mal nenhum, garante a psicóloga clínica e consultora de Recursos Humanos Sirlene Ferreira. Para ela, acostumar-se à nova rotina, no Brasil, é uma questão cultural.

“Somos criados para entregar resultados. Se eles forem bons, continuamos, se não forem, estamos fora e isso independe da idade. Alcançar maturidade para a aposentadoria e usufruir de outro tipo de entrega é uma questão de hábito. Nesse momento da vida, o resultado é a satisfação, não a recompensa remunerada”, esclarece, lembrando a importância de manter o cérebro ativem pleno funcionamento.

Escolha Pessoal

O coach e consultor de carreiras Emerson Weslei Dias ressalta também que a decisão deve ser pessoal, baseada em uma autoavaliação.

“Toda transição é parecida, com um interregno, período que não se quer ou não se tem mais. Leva-se tempo para adaptação e é essencial haver um plano bem definido e sentir que é chegada a hora”, avalia.

“Deixar de ter o sobrenome da empresa pode levar à sensação de falta de utilidade ou autoridade. Como toda transição, isso requer tempo de adaptação”
Emerson Weslei Dias
Coach e consultor de carreira

Além disso

A população brasileira está vivendo mais e, portanto, ficando mais velha. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 40 anos a parcela idosa – com mais de 60 anos – irá triplicar, passando dos 19,6 milhões (10% da população), conforme dados apurados em 2010, para 66,5 milhões, em 2050, mais de 29% do total de habitantes do país.

De acordo com o órgão federal, a “virada” no perfil da população deve acontecer em 2030, quando o número absoluto e o porcentual de brasileiros com 60 anos ou mais irão ultrapassar o de crianças com até 14 anos. Nesse período, o contingente da terceira idade chegará a 41,5 milhões, 18% da população, e o de crianças a 39,2 milhões – 17,6% do total de brasileiros.

A modificação do perfil do brasileiro tem gerado uma série de discussões que envolvem políticas públicas voltadas para saúde e assistência social. Um dos pontos mais polêmicos diz respeito à reforma da Previdência, apontada pelo governo como saída para evitar um “colapso”.

O principal argumento é justamente o aumento da expectativa de vida do brasileiro, que em 14 anos passou de 70,4, em 2000, para 75,2 anos, em 2014. Pela proposta do governo, homens e mulheres com 65 anos precisarão ter contribuído 25 anos para poder se aposentar.