O que é que a cozinha mineira tem? Gerada em ambiente montanhoso e de ambição mineral, sofreu influências diversas e nasceu múltipla de possibilidades. A cultura alimentar de Minas é fruto do troca-troca de saberes africanos, indígenas e europeus, particularmente. Do uso e abuso do milho, da mandioca e da cana, da forte presença das carnes de porco, das raras carnes bovinas ao tempo de seu começo e das iguarias dominicais feitas de frango cozido ao molho pardo, coberto por quiabo ou ora-pro-nobis.

A típica cozinha mineira tem suas exigências: pronta, quer permanecer em panelas. Não em qualquer uma, mas nas de pedra sabão ou nas de ferro. É da sua quentura vista e sentida através da fumaça que ela começa a se expressar... Seu perfume é sem igual, resultado dos refogados de sal com alho e urucum.

Sendo nativista, rende louvor ao verde e amarelo nacionais pela magia da couve e do angu nosso de todo dia. A forte presença da pimenta é sempre bem-vinda, além da graça do cheiro verde usado para finalizar e da cachaça para começar.

Hoje, reconhecida nacional e internacionalmente, a gastronomia de Minas tornou-se cartão postal da nossa gente. Por experiência própria, na rotina da nossa casa, comprovamos a força e o encantamento que uma cozinha verdadeiramente mineira produz. Prova disto, o tema virou samba enredo no Carnaval de 2015 da Salgueiro, no Rio de Janeiro.

Mas, cozinha é coisa séria! À ‘frente’ de todo alimento está a fartura d’água limpa. Não se planta ou se colhe sem água. Dos elementos fundamentais da natureza - terra, ar, fogo e água - a natureza escolheu a água para acolher a vida.

Diante de tantos e tamanhos atentados à natureza que, infelizmente, a era industrial e tecnológica trouxe a seu reboque (em nome da ânsia desvairada pela conquista de um mundo pós-moderno) nada mais urgente do que pensar, criar e realizar objetivos de desenvolvimento sustentável. É urgente a tarefa coletiva de reaprendermos a ‘ler’ a natureza. E não precisamos de gestos de outro mundo para nos tornarmos, um por um, guardiões das ODS traçadas pela ONU e, felizmente, acolhidas pela Frente de Gastronomia Mineira.

Basta ser “elo”!

A FGM brindou o Dona Lucinha com a tarefa simbólica de ser Guardiã da ODS 6 – Água Limpa e Saneamento. Uma honra desmedida e uma responsabilidade fora da medida... Esta honraria nos conduz naturalmente a pensar modos, por simples que sejam, de evitar desperdício. Nossa melhor linguagem é a de fazer uso de receitas.

Receita de uso d’água na cozinha
1 - Mantenha a torneira aberta em modo de fio d’água enquanto estiver ensaboando louças, panelas e vasilhames em geral.
2 - Na hora do enxague, aumente um pouquinho o volume, mas só um pouco, porque o sucesso da receita é mudar nosso jeito de lavar.
- Ou, para deixar a coisa clara feito água limpa, é hora de desaprender o hábito de deixar jorrar água como se ainda estivéssemos diante das bicas d’água dos tempos dos nossos avós... Ao invés de torneira muito aberta (que em sua grande parte, bate e espalha) e do seu abre e fecha sem parar: água pouca e constante!
- Pronto, eis a receita. Experimente! E depois passe pra frente.

 

*Membro da FGM e guardiã da ODS 6