A expressão “Revolução Verde” foi utilizada pela primeira vez por Willian Gown, em 1996, durante uma conferência em Washington, referindo-se a um período entre as décadas de 1960 e 1970, em que investimentos estrangeiros em países em desenvolvimento - entre eles, o Brasil - proporcionaram a tecnificação dos meios de cultivo alimentar. A produção de alguns insumos chegou a quadruplicar em poucos anos, o produtor familiar perdeu competitividade em relação ao latifundiário, o que levou ao êxodo rural e todas as suas consequências políticas, sociais e ambientais.

Talvez, muito pouco discutido, sejam os efeitos dessa transformação nos hábitos e na cultura alimentar das populações rurais. Essas mudanças são notórias aos que habitam o meio rural, principalmente, entre os mais velhos. 

Em uma conversa de alguns minutos, um matuto roceiro pode levar o ouvinte a um mundo que, talvez, habite apenas o seu imaginário, mas que faz parte do passado de muitas famílias. 

Uma época em que se reunia a família para matar o porco engordado no quintal ou preparar um franguinho caipira no fogão a lenha. Assava-se o “cubú” - bolo de fubá de moinho de pedra - que era a merenda do dia a dia. Juntava-se a “mulherada” para fazer polvilho; o milho era colhido verde no mês de janeiro para a “turma” fazer pamonha; e “tirava-se” o leite pra fazer queijo, requeijão ou doce.

Nada disso é mais viável, pois toda a produção, normalmente leite ou gado de corte, é obrigatoriamente vendida para o sustento da família que ainda habita o campo, agora, bem menor que antes. 

Quase todo o alimento é industrializado, compram o porco do açougue mais próximo, nada mais se planta; o povo da roça diz que não “compensa”. Porém, em seu relato sempre haverá um saudosismo do tempo de “soprar café” ou “socar pilão”, não apenas pelo ato em si ou pelo seu produto saboroso, mas também por tudo o que isso significa, pelo poder de unir as pessoas, de “juntar” alguém para produzir algo.

O campo nos fornece alimento e cultura. Hábitos alimentares rurais estão profundamente arraigados em nossos costumes, mesmo em meios urbanos. Chefs renomados viajam o mundo disseminando a cultura do matuto mineiro. Restaurantes como Armazém Dona Lucinha, de Belo Horizonte, mundialmente famoso, são vitrines de produtos e hábitos que se formaram no campo, na roça, entre famílias, entre peões.

Talvez, um honroso esforço de manter vivos os costumes que permeiam a memória e o imaginário das pessoas, uma celebração de tempos onde comunhão do alimento era rotina, onde a produção do que se come estava ligada às mãos de quem produz.

Todos, profissionais da gastronomia ou não, devem buscar o resgate e a preservação das tradições que pertencem às nossas comunidades rurais que o progresso parece atropelar.

 

*Marcos Rodrigues. Aluno de Gastronomia do Centro Universitário Una e membro da Frente da Gastronomia Mineira