É hora de dar tchau

Aqui é Galo! / 24/11/2017 - 06h00
Otero comemora um dos gols na vitória de 3x0 do Atlético contra o Coritiba

 

 

O gol de Otero, aquele mesmo que Pelé não conseguiu fazer, foi reprisado à exaustão, com muita gente já lhe entregando, por antecipação, o título de mais bonito do campeonato. O que me levou a regredir 12 meses no tempo, quando Cazares também fez um do meio da rua, na final da Copa do Brasil diante do Grêmio, no apagar das luzes de 2016.

Isso não quer dizer que, em 2018, eu vá querer fechar um ano desmilinguido com outro petardo certeiro de longa distância. Se ainda fosse como no basquete, em que as cestas de fora da linha valessem três pontos, um gol desses, além da plasticidade, somaria muito a um resultado ou a um campeonato – de tão raros, poderiam equivaler a cinco gols.

Um gol de escanteio, conhecido como “olímpico” e igualmente incomum de se ver, somaria três ao placar. De bicicleta, dois. Gol contra, meio. Carlos Adriano, meu amigo de resenhas, prefere o modelo do voleibol, agregando bônus não ao placar, mas sim aos pontos da competição. Uma vitória de 3 setes a 0, por exemplo, receberia três pontos. Já um 3 a 2, dois.

Formas que garantiriam maior competitividade e beleza a uma partida, com um jogador diferenciado podendo influenciar mais no resultado, algo que hoje deixou de ser tão determinante. O que adianta ter um craque como Neymar lá na frente se a defesa toma gols na mesma proporção que o ataque faz, síndrome sofrida pelo Atlético ao longo da temporada.

Nos anos 80, meu pai sempre me levava ao Torneio Início, quando os times mineiros se enfrentavam no mesmo dia e local até conhecerem o campeão. Eram jogos de 15 minutos em que número de escanteios e cartões amarelos tinha valor. Não demorou muito tempo, assim como a tal da “morte súbita”, que encerrava um jogo no primeiro gol que saísse na prorrogação.

Na adolescência passada na rua, quando minha mãe me chamava para voltar para casa, já tarde da noite, a forma como resolvíamos terminar uma partida empatada era assim, com a primeira bola batendo no portão assinalando o final. Era um Deus nos acuda, não só pela pressa, mas pelos muitos pés que surgiam para evitar o chute – naquele tempo, não havia goleiro.

Com o gol decisivo, todo mundo saía correndo para casa e a rua logo estava vazia, sem deixar ninguém em depressão – nada como uma banho bem tomado e o jantar quente para esquecer uma derrota na pelada. O “gol de ouro” nos Jogos Olímpicos, ao contrário, era coisa de ir parar no psicanalista, uma espécie de gozo interrompido.

O time poderia estar melhor, mas uma bobeirinha da defesa e babau. Não haveria chance de recuperação depois. Qualquer bola lançada na área virava um terror. Ainda bem que acabaram com a prorrogação também em alguns campeonatos, indo direto para os pênaltis. Fazendo valer o estilo Velho Oeste, é melhor resolver no mano a mano, goleiro versus batedor.

Como nada é tão doce como parece, segundo pesquisas quem inicia a cobrança tem chance maior de vencer. Aí foram buscar na Matemática uma solução: a sequência thue-morse, também conhecida como ABBA, nome igual ao da famosa banda sueca. Enquanto não põem em prática por aqui, quem pede música é o Otero – “Happy New Year”, parece dizer.

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários