A mais bela das noites

Aqui é Galo! / 20/10/2017 - 07h00
Valdivia

 

 

Já eram quase oito horas da noite quando um senhor que nunca vi na vida, empurrando um carrinho apinhado de papéis e garrafas plásticas colhidos no bairro, gritou do outro lado da rua: “Que Deus abençoe a sua noite, jovem!”. Olhei ao redor e não havia mais nenhuma viv’alma. Era comigo mesmo. Ele acenou com a cabeça, esboçou um sorriso e seguiu seu caminho.
 
No momento em que cheguei em casa, minutos depois, meu pai se assustou, perguntando o que eu fazia ali. Não precisou dizer mais nada. Como estava com o rádio ligado, um ritual dele em dias de jogo do Atlético, fiquei arrasado, invadido por um sentimento de culpa: pela primeira vez havia me esquecido de um jogo do Galo, achando que seria no dia posterior.
 
Dava tempo de ir correndo para o Independência, mas o corpo estava cansado, após ficar três horas em pé para ver o show de Paul McCartney. Se há muito tempo me ressentia de um show de bola, no palco montado no Mineirão Paul foi soberano. O beatle fez valer tudo a pena: da longa espera pelo Uber à chegada em casa por volta de 2h30.
 
Durante meia hora fiquei imaginando mil situações, com o Galo goleando a Chapecoense, numa partida memorável, voltando a ciscar em seu terreiro. Lembrei do homem da rua, da “boa noite” que me esperava por ordens divinas. Pensei em Robinho, na 100ª partida dele com a camisa alvinegra. Seria um recado de Deus para não faltar à cerimônia de consagração?
 
Quando Valdívia abriu o placar, com um belo passe de calcanhar de Robinho, desabei. Tive raiva de mim. Xinguei Paul por ter me enganado, seduzido-me com sua música hipnotizante. Sentia-me como o personagem de “A Hard Day’s Night”, composta pelo inglês na época do quarteto de Liverpool. Let it be, let it be (deixe estar). “Haverá uma resposta”, como diz a letra desta última.
 
Dormi profundamente e, nos meus sonhos, aquele senhor que me desejara uma noite celestial aparecia ao meu lado, cantando “All Together Now” – one, two, three, four, Can I have a little more, five, six, seven, eight, nine, ten... E eu gritava “Goleada, não! Goleada, não!”. Era gol de Robinho, Elias, Cazares... até o Fred marcou o dele.
 
Acordei com o barulho do Breno tropeçando nos gatos. Perguntei logo quanto foi o placar. “Três...”, ele mal completou a frase e eu respirei aliviado. “Uma noite abençoada, então”, constatei. “Como assim? Foi um dos piores jogos do Atlético, com direito à expulsão do Elias e vaias de toda a torcida”, corrigiu o Breno. Bom, o Galo continuava o mesmo. E eu virei para o lado e voltei a dormir.
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários