Bruxarias e superstições

Aqui é Galo! / 15/12/2017 - 07h00
ronaldinho
 

 

Não sou supersticioso, mas nos últimos dias eu me agarrei a qualquer crendice à espera de ver o Galo na Copa Libertadores de 2018. Começou no caminho para casa, quando ouvi um “ploft” forte no pára-brisa. Não tive dúvidas de que um passarinho mirou o meu carro como o alvo de suas necessidades fisiológicas, já antecipando uma semana de “m...” (sim, aquilo mesmo).

O termo pode parecer chulo, eu sei. E há sinônimos mais “politicamente corretos”, como cocô, caca, fezes, excremento e titica, mas nenhuma dessas palavras tem o mesmo significado de “m...”, ainda hoje usado no teatro quando alguém quer desejar boa sorte na estreia de um espetáculo.

Antigamente, quando havia grande expectativa sobre uma determinada peça, as charretes faziam fila na porta do teatro, com os cavalos não mostrando nenhum pudor em emporcalhar as ruas. Tempos depois, eles – os franceses, sempre eles – passaram a ver na “m...” um sinal de sucesso.

Talvez isso explique a razão de afirmarem que pisar no cocô é também um bom presságio. Por incrível que pareça, no espaço de uma semana, eu pisei nele, o cocô, nada menos do que três vezes. Perto da casa da minha mãe, do meu prédio e da escola da Julia. Para cada tênis fedorento, porém, achava que haveria uma compensação.

Num dia tão decisivo para o cronograma do Atlético em 2018, canalizei tudo o que apareceu sob o meu calçado na final da Sul-Americana. A gente até poderia se sentir meio sujo, torcendo para um dos maiores inimigos, mas a vitória deles representaria um golpe de sorte para um ano tão malfadado como o nosso.

Enquanto Julia se divertia com a situação, mandando mensagens com emojis em forma de cocô, eu acompanhava a partida cheio de expectativas, esperando que tanta caca finalmente surtisse algum resultado. Percebi tardiamente que o Independente tinha seu próprio amuleto, um bruxo chamado Manuel.

Não precisa ser fã de Harry Potter para entender a hierarquia de forças sobrenaturais em jogo. Pisar no cocô é uma superstição, bem natural por sinal. Feiticeiro tem nome e endereço. O Atlético também já se valeu das virtudes de um bruxo, mas dentro de campo, levando o time de volta a Libertadores depois de tantos anos.

Ronaldinho era assim, como se regesse uma bem azeitada máquina de futebol bonito. Entramos para uma era mágica em que tudo parecia conspirar a favor – da perna benzida de Victor, ao defender um pênalti nos últimos minutos do jogo contra o Tijuana, aos gols que brotavam aos montes, um atrás do outro.

O gol parecia uma dessas ervas daninhas, que se espalhavam facilmente. Podia sair numa cobrança por baixo da barreira, num gol olímpico ou depois de maliciosamente pedirem água ao goleiro adversário. Bruxarias como essas não se desfazem facilmente, como se nos enfeitiçassem eternamente.

Mesmo depois de sua saída, continuamos acreditando, esperando o Galo Doido ressurgir em todo os seu esplendor. O ano de 2017 serviu para cair a ficha do torcedor. Chegamos a este estágio de se agarrar a um urubu em pleno voo, num ato de desespero. “Merdas acontecem”, diria Forrest Gump.

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