Ano Novo. Há esperanças?

Direito Hoje / 04/01/2018 - 06h00

Antônio Álvares da Silva*

Bertrand Russel, em seu notável livro Tem Futuro o Homem? demonstra um lado pessimista da humanidade e lhe contrapõe um outro, diferente, em que reina a paz e a justiça e os homens gozem de liberdade e bem-estar.

O lado negativo é que o ser humano até hoje só foi capaz de produzir a dor e praticar a matança coletiva em sucessivas guerras. As diferenças entre as pessoas, internamente nas diferentes nações, e externamente no concerto dos Estados existentes é um mal que até hoje não teve solução. Egoísmos e injustiças têm sido a regra da vida coletiva em todos os lugares do mundo.

Nestes mais de 20 séculos de civilização não conseguimos resolver sequer o problema da alimentação e habitação. Isto sem falar na miséria absoluta que assola a humanidade.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki Moon, disse que há mais de 1,2 bilhão de pessoas vivendo com menos de US$ 1,25 por dia e 2,4 bilhões vivem com menos de US$ 2,00 por dia. Mesmo os trabalhadores em empregos fixos não ganham o suficiente para um padrão de vida digna. Portanto, pode-se concluir que praticamente toda a humanidade sofre de carências que a civilização dos séculos anteriores até a nossa época não conseguiu remover. Um dado realista que nos faz duvidar de nossa racionalidade. Quem tiver interesse nos detalhes da loucura dos gastos com armamentos percorra o site Stockholm International Peace Research Institute e verá a assombrosa montanha de dinheiro gasta em armamentos, que daria para aliviar em pouco tempo as carências da humanidade.

Mas Bertrand Russel não é só pessimismo. Como todo filósofo, teve forças para erguer a visa para o alto e sondar o outro lado do problema. A humanidade é um ser que está em sua infância biológica. O homem é a mais recente das espécies animais. Por isto ainda é cedo para traçar limites a seu poder de realização.

Se é verdade que até agora só vimos miséria, erros e destruição, a humanidade vai viver ainda muitos séculos. Se o desenvolvimento tecnológico não é tudo, é certo que vai contribuir diretamente para um futuro melhor para o ser humano. No instante em que for capaz de assimilar para o bem o que é capaz hoje de inventar e usar para o mal, estará garantida a virada que todos esperam.

Se o mundo dedicasse 15 dias de sua renda bruta a um órgão que distribuísse este dinheiro para os Estados segundo suas necessidades, teríamos dado o passo decisivo.

O homem, mais cedo ou mais tarde, terá que aprender a viver com os instrumentos tecnológicos, dirigindo-os para o bem comum. Então associará a ética com a tecnologia e a humanidade terá um destino bem melhor do que a situação de neurose e sofrimento que hoje a todos afligem. O ditador norte-coreano se orgulha de ter em sua mesa de trabalho um botão que pode destruir parte do mundo. A Síria resiste a mudanças, submissa a outro ditador, que se julga dono do país, mantendo uma guerra feroz entre irmãos com crianças e inocentes mortos a cada bombardeio.

Conclui Bertrand Russel que podemos abandonar a teoria paradoxal de que, para manter-nos vivos, é preciso matar-nos reciprocamente. Há esperança porque a humanidade vai viver muitos anos ainda. Pode ser que no futuro saiba construir um mundo melhor para ela. Aprenderemos então que viver é melhor do que matar e que o homem, capaz de criar o mal, seja igualmente apto a criar o bem. Então, no curto momento que nos separa do mistério do mundo de onde viemos do mistério do mundo para onde vamos, possamos levar conosco pelo menos a alegria de havermos vivido um instante de paz e felicidade.

*Professor titular da Faculdade de Direito da UFMG

 

 

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