Boca de verdades

Opinião / 09/08/2018 - 06h00


Ricardo Lima (Frei)

Chico Buarque, certa vez, quando questionado por uma criança de sua família, que apontava certo exagero ou imprecisão numa história contada pelo compositor, disse que não se tratava de um embuste ou coisa que o valha aquilo que estava dizendo, mas que fazia parte de uma prática chamada Boca de Mentira: pequenos exageros ou invencionices que deixavam o enredo mais intrigante e atraente, num claro apelo ficcional de uma narrativa sempre divertida. 


Parece que hoje temos que lidar cotidianamente com as “Bocas de Verdades”, que, na realidade, soam mais mentirosas do que tudo. O problema é que as “verdades” que saem de tais bocas, ao contrário do que fazia Chico, parecem querer o estado de uma realidade nada ficcional. Quer, mesmo, ser entendida como a Verdade no singular, com V maiúsculo, única e irrevogável. Não se trata de algo divertido ou um entretenimento ligeiro, casual. Apresentam-se como “fatos” e desafiam as nossas consciências e raciocínios, que a cada momento sentem mais dificuldades de separar farsas de verdades. O embate descrito está contido na polêmica Fato ou Fake, que vem ganhando relevância nas redes sociais e na mídia em geral. 

É sabido que verdades são muitas, no plural. Pensadores e profissionais que lidam com a matéria sabem que não é possível encontrar uma verdade essencial, mas apenas verdades parciais, que se explicam em contextos específicos. Profissionais da área de comunicação social precisam entender a dinâmica da produção de fatos e fakes na atualidade para não serem surpreendidos por estratégias pouco honestas de construção de notícias.

O comunicador, seja jornalista ou publicitário, precisa compreender que seu trabalho promove circulação de conteúdos, de histórias, de informações que são recebidas por muitos como verdades a serem incorporadas na realidade de cada um. A realidade da nossa sociedade é formada principalmente pelo que presenciamos diretamente e pelo que nos contam e nos oferecem os meios de comunicação. Assim, uma notícia falsa, por exemplo, pode ser incorporada à realidade do público e assumida como verdades. No limite, deste modo, uma realidade repleta de coisa falsas pode ser considerada real?

Num tempo em que qualquer conteúdo veiculado em smartphones torna-se verdade como que num transe hipnótico, a necessidade de bons profissionais, éticos, com capacidade técnica para bem comunicar se faz urgente. Fato!

*Jornalista, mestre em História, doutorando em Artes, professor do curso de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Faculdade Promove.
 

 

 

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