Democracia de papel e primavera

Opinião / 03/05/2018 - 06h00

Alex Ian Psarski Cabral e Cristiane Helena de Paula Lima Cabral *

Não importa a estação do ano, o brasileiro tem fama mundial de cordial e pacífico. Mas a principal característica do povo brasileiro é a sua resiliência. Lidar com uma rotina de problemas, que vai desde as altíssimas taxas de desemprego à precariedade da saúde, requer, acima de tudo, criatividade. 

Sob essa perspectiva, seria de se imaginar que, em momentos de inverno, como a crise que se vivencia em 2018, os brasileiros se uniriam para superarem, juntos, todas as adversidades.

Contudo, na Era Digital, o acirramento das desigualdades sociais e o profundo abismo entre ricos e pobres, tem revelado outra face do brasileiro. E as relações sociais (e digitais) são constantemente marcadas por casos de xenofobia, intolerância e discursos de ódio.

A democracia digital, provocada pela explosão das redes sociais e aplicativos de interação social, criou o ambiente propício para a demonstração de um lado oculto da brasilidade, expondo-se a personalidade do brasileiro intolerante e escancarando o revanchismo do discurso nós versus eles.

A crise nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário contribui substancialmente para a propagação do sectarismo, que deixa evidentes as entranhas da nossa “democracia de papel”. Testemunhamos o Executivo árido e corrompido que, exposto à sua própria fragilidade, se submete como um vassalo a um Legislativo daninho e sem credibilidade. 

Tal qual um verdadeiro super-herói, inventado e fomentado por uma mídia aturdida e subserviente, o Judiciário comete cada vez mais (e maiores!) aberrações em nome do suposto combate à corrupção. E, ao fazê-lo, torna-se ele próprio, algoz de sua causa: a justiça. 

Como reagiria Monstequieu com sua teoria sobre a “separação dos poderes” e o sistema de “freios e contrapesos” no Brasil do Século XXI? Num regime impresso à base de celulose, a tecnologia não têm sido capaz de amenizar tantas deformidades e o verdadeiro titular do poder político padece. 


Nesse cenário, onde a grande maioria da população brasileira sequer tem acesso a uma educação de qualidade, todos os brasileiros, quer queiram ou não, estão direta ou indiretamente envolvidos nesse processo, seja como protagonistas da destruição, seja na condição de vítimas conscientes ou inconscientes. 

O que se espera, com as eleições presidenciais à vista, é que a democracia reinaugurada no Brasil em 1988 se reencontre e que a desgraça reúna com sintonia o pobre e o rico, o papel e o digital. E, quando a tecnologia cumprir com o mister de sua inarredável sina, o brasileiro use de toda a sua resiliência e saiba, ele próprio, cumprir, na primavera, sua missão.

*Alex Ian é doutor em Direito Público Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Mestre em Ciência Jurídico Internacionais pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Consultor Associado do Escritório Botelho e Castro Advogados Associados. Professor de Direito das Faculdades Kennedy
*Cristiane Helena de Paula é doutora em Direito Público Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Mestre em Ciência Jurídico Internacionais pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Consultora Associada do Escritório Botelho e Castro Advogados. Associados Professora de Direito das Faculdades Kennedy
 

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários