(Des)igualdade biológica na medicina

Opinião / 09/04/2018 - 06h00

A medicina passa por uma revolução que visa personalizar os cuidados de acordo com a biologia (principalmente genética) de cada indivíduo. Esse conceito “revolucionário” recusa a noção falsa de igualdade biológica entre sexos. Segundo estudos, prevalece a noção de que cada indivíduo deve ter características e necessidades únicas conhecidas e respeitadas. 

Estima-se que o processo da evolução tenha seis milhões de anos. Ao longo desse tempo, homens e mulheres assumiram diferentes papéis na reprodução e na perpetuação da espécie humana. Esses papéis estão embebidos em nossos genes e nas variações dos sistemas fisiológicos entre os sexos, sendo inegável que os organismos comportam-se de maneira distinta e impactam as estratégias de diagnóstico e de tratamento. 

Historicamente, as mulheres foram encarregadas de cuidar das crianças durante muito tempo. Esse contato físico próximo era acompanhado de um maior risco de adquirir doenças infecciosas. Isso levou também ao desenvolvimento de um sistema imune mais robusto em mulheres: mais resistentes às infecções e mais suscetíveis a doenças autoimunes. 

Em outro exemplo, as doenças cardíacas são consideradas eminentemente masculinas, mas essa noção popular só é verdadeira até os 50 anos (menopausa). O risco nas mulheres cresce muito com o declínio dos estrogênios e com o aumento de fatores de risco como obesidade e tabagismo.

Hoje, as doenças cardiovasculares são também a principal causa de morte em mulheres.

Pode haver diferenças relacionadas ao sexo também em testes laboratoriais. Os valores de referência para interpretarmos vários exames foram estudados separadamente em homens e mulheres, especialmente para os hormônios sexuais, e são informados para cada sexo (e, às vezes, idade). O sistema de determinação do sexo biológico é direcionado por cromossomos e por hormônios sexuais. Portanto, cariótipos e hormônios esteroides se comportam de maneira diferente.

Após o início da puberdade, os órgãos relacionados às características sexuais se desenvolvem e os testes que mostram esse funcionamento destaca diferenças óbvias, as quais se reduzem após a menopausa. Estudos mostram comportamento semelhante para o metabolismo ósseo e para o metabolismo lipídico, os quais parecem bastante influenciados pelos estrógenos. 

É importante reconhecer que, na medicina, é preciso diferenciar as características exclusivamente femininas e masculinas. Não devemos confundir, porém, as diferenças biológicas entre os sexos com as diferenças entre os gêneros masculino e feminino. 

Os transgêneros vêm colocando importantes questões médicas e desafios quanto a melhor abordagem das alterações superpostas ao genótipo e ao fenótipo originais. Essa nova área de conhecimento médico deve levar em conta tanto os aspectos biológicos dos diferentes sexos como os aspectos sociais e ambientais relativos aos gêneros, de forma a permitir a conduta médica mais humanizada, personalizada e efetiva.

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