Gastronomia ou culinária mineira?

Opinião / 12/04/2018 - 06h00

*Cidinha Lamounier e Frederico Divino


Todos que trabalham com gastronomia torcem o nariz quando falamos que é possível fazer alta gastronomia tendo como base a culinária mineira tradicional. Mas tudo é uma questão de visão e de posicionamento diante do mercado. Espaço existe para todas as propostas desde que sejam bem feitas, coerentes e com o propósito de divulgar a gastronomia e a cultura local. Mas, afinal, o que o estado de Minas Gerais tem a oferecer? Apesar de ser uma das mais brasileiras das cozinhas, tendo em vista que tem na sua formação três culturas que formaram a base da história do Brasil: a indígena, a portuguesa e africana. 

Ela seduz pelos aromas, que jamais se perdem ou se dissipam na lembrança daquele que se deixou envolver por uma cozinha de fazenda, fogão a lenha queimando em brasa, panela de ferro, de pedra, de cobre - mesmo que não possa ser usada - e de barro, lombo cozido em sua gordura e depois sendo dourado no forno ou na chapa, couve sendo refogada no alho, do torresmo à pururuca, de frango com quiabo e de uma infinidade de pratos que sempre deixam saudade.

É uma culinária fácil, mas que exige paciência. Bom de cozinhar, tomando uma cachacinha, uns dois dedos de prosa, beliscando um torresmo ou mesmo uma linguicinha. Não há que ter pressa. Há seu tempo e sua hora para que possamos preparar esta bela culinária que se apresenta farta, cheirosa, colorida e saborosa.
A culinária mineira é feita de pratos simples, extremamente saborosos e com um ingrediente especial que confere um sabor delicioso, as histórias e seus amores. Isso mesmo! Os pratos da culinária mineira são temperados, sobretudo, com histórias e amores bem brasileiros. Algumas delas lá da época dos negros escravizados, dos inconfidentes e até dos primeiros alunos da Escola de Engenharia. Sem contar a história de amor de Marília e Dirceu vivida em Ouro Preto, berço da mais autêntica cozinha mineira. Minas tem uma culinária que se desenvolveu na época do ciclo do ouro e das pedras preciosas, que atraíram milhares de pessoas para o estado. As cidades de São João del-Rei, Mariana, Ouro Preto, Diamantina, Tiradentes, dentre outras surgiram nesta época.

Cozinha simples. Tem café da manhã? Tem! Café, pão com manteiga, queijo, broa de fubá, pão de queijo etc. Almoço? Claro que tem! Simples também, uai! Arroz, feijão, carne, legumes e verduras. Sobremesa? Uai, é claro! Doce de leite, ambrosia, goiabada com queijo, doce de compota etc. Sem falar que tem café da tarde e jantar. Antes de dormir um gole de café com uma quitanda porque ninguém é de ferro.

Tudo isso gente, tirado de produtos do fundo do quintal, o porco, couve, fubá, jiló, quiabo, galinha etc. É disso que faz esta cozinha simples, porém de sabor incomparável. É como Minas Gerais “quem te conhece não esquece jamais”!

*Cidinha é professora do curso superior de Tecnologia em Gastronomia das Faculdades Promove, chef de cozinha pelo C.I.A e Frederico, professor do curso superior de Tecnologia em Gastronomia das Faculdades Promove, Mestre em Educação e Desenvolvimento Local
 

 

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