Intolerância à lactose

Opinião / 14/08/2017 - 06h00

Ricardo Barbuti (*)

A lactose é um açúcar presente no leite de praticamente todos os mamíferos, tendo como única exceção o leão marinho. Trata-se de uma molécula composta por dois açúcares menores, a glicose e a galactose. Assim, quando ingerimos lactose, ela tem que ser quebrada ao meio, para que a glicose e a galactose se separem, permitindo assim sua absorção pela parede intestinal. Quem faz esta quebra é uma enzima conhecida por lactase. 

Indivíduos que não conseguem produzir esta enzima em quantidades adequadas, não conseguem digerir este açúcar. A lactose não digerida, chega ao intestino onde vai ser fermentada por bactérias, gerando gases, distensão, dor abdominal e alteração do hábito intestinal (normalmente diarreia, podendo contudo, apresentar também constipação). 

A falta de digestão da lactose pode também modificar a população bacteriana do tubo digestivo, promovendo aumento de bactérias que “gostam” de lactose em detrimento das outras. Este desequilíbrio pode levar também a vários sintomas extra-intestinais, sendo descritos sonolência, adinamia e mesmo depressão. A falta de digestão da lactose não necessariamente leva a sintomas. 

Cerca de 70% da população do planeta não digere lactose, mas somente um terço destes apresentam sintomas secundários a esta má digestão. Quando a má digestão leva a sintomas, falamos em intolerância. A falta da enzima é normalmente geneticamente determinada, havendo etnias com mais ou menos digestão. Exemplo: praticamente 100% dos japoneses não digerem lactose, enquanto somente 20% dos suecos têm este problema. 

O diagnóstico é feito baseado nos sintomas, história clínica, exame físico e exames específicos que envolvem testes genéticos, respiratório, sanguíneos ou mesmo por biópsias intestinais. O médico deve sempre estar atento para o que chamamos de intolerância secundária, onde o paciente tem deficiência de lactase secundariamente a uma inflamação intestinal que impede a produção da enzima. 

O tratamento passa pela parada da ingestão de leite e derivados, estratégia não ideal, já que pode gerar vários problemas nutricionais, principalmente secundários a falta de cálcio e outras vitaminas em que o leite é rico. Pode-se ainda consumir produtos lácteos com baixo teor de lactose, suplementação de algumas cepas de lactobacilos que produzem lactase e utilizar a enzima (lactase) quando se for consumir lactose. 

Esta última estratégia parece ser a que menos interfere na qualidade de vida dos pacientes, lembrando que a enzima só deve ser ingerida no momento que vamos consumir a lactose. Caso seja ingerida lactose em diferentes momentos do dia, a enzima deve ser utilizada também em várias ocasiões. Quando não consumir lactose não há necessidade de usar a enzima.

(*) Médico do Departamento de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

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