Laboratório de palavrinhas

Opinião / 08/03/2018 - 06h00

Luciana Mara França Moreira

 

Temas atuais na ciências da educação ou no campo do conhecimento caminham em direção a três conceitos: multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, que revelam o potencial dentre os vários saberes, com diferenças e convergências impulsionando o novo.

No campo da Comunicação e da Publicidade, o encontro com outras áreas do conhecimento fortalece os insights, promovendo atuações pontuais. O ofício envolve vários aspectos do conhecimento, tornando difícil descrever com exatidão os fundamentos do seu sucesso.

Na ciência publicitária as palavras funcionam como gatilho para atingir a subjetividade ou a interioridade e o inconsciente humano. A expressão “acertamos na veia” significa “atingimos a subjetividade do espectador, tocamos na sua intimidade, produzimos com eficácia e eficiência”. Palavras cujos efeitos pulverizam para além da sua significação, como se pudessem ser injetadas na veia, impulsionando a vida e o sucesso neste trabalho.

Sabemos, no campo da Psicanálise, que palavra incide sobre o psiquismo e o corpo. Freud, no início dos seus estudos, despertou para o valor das palavras na vida psíquica do sujeito. Ao postular o aparelho psíquico, não hesitou em dizê-lo um aparelho de linguagem. As palavras são unidades da linguagem: complexas nas suas representações, constituem-se de elementos acústicos, visuais e cenestésicos.

A palavra, para Freud, não adquire significação por meio de sua relação exata com o objeto, como pensava-se na ciência positivista, mas através da vinculação entre imagem acústica da apresentação da palavra e a imagem visual do objeto. Na nossa memória temos a representação da palavra e representação do objeto.

O laboratório de palavrinhas na publicidade e nas mídias atuais sugerem exatamente que palavras são dotadas de significação. Estaria o sucesso das ciências da comunicação atrelado à vida psíquica e à subjetividade? Observa-se a reprodução do mundo das coisas para o mundo das palavras, o que dá ao mundo das coisas uma significação.

Profissionais do campo psicanalítico sabem que a palavra tem dinâmica na vida psíquica - e acertar na veia atinge o desejo. O desejo cambiante entre o homem e o outro e a própria civilização. Lacan inicia os seus estudos e propõe o inconsciente estruturado como linguagem, onde circulam as palavrinhas que possuem algo do universal “significado” e, ao mesmo tempo, o subjetivo e o singular “significante”. “Acertar na veia” produz, reconhece, causa foco, localiza objeto e faz surgir algo novo na vida subjetiva.

Há muito que articular entre Psicanálise e as mídias atuais no campo da Comunicação e da Publicidade. O laboratório de palavrinhas teria como foco o inconsciente e seus enigmas, campo em que as palavras podem deslizar e atuar visando algo novo.

Psicóloga e psicanalista, mestre em Psicologia; professora das faculdades Promove e Kennedy

 

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