Viola cabocla

Opinião / 09/07/2018 - 06h00

Antônio Álvares da Silva*

A imprensa mineira noticia um grande acontecimento cultural: a viola sertaneja terá mais um merecido título em sua história: foi agraciada como patrimônio cultural do Estado. Em pesquisa séria, meticulosa e prolongada do Iepha ( quase um ano de sondagens, buscas e informações) foi produzido o documento Saberes, Linguagens e Expressões da viola em Minas, em que foram pesquisados violeiros, violas e regionalismos, para documentar e justificar o título concebido.

Na realidade, não foi uma descoberta, mas um reconhecimento. A viola cabocla (evito de propósito o termo “caipira”) faz parte das culturas portuguesa e brasileira. Em diferentes regiões portuguesas havia vários tipos de viola e o instrumento veio para o Brasil, introduzido pelos jesuítas que, além da alfabetização aos filhos de índios, ensinavam-lhes a arte de tocar e cantar, como descreve Roberto Correa, professor da Escola de Música de Brasília, em seu valioso livro A Arte de Pontear Viola.

Ausente das cidades, poucos sabem que a música sertaneja, que tem na viola sua expressão artística, andou junto com a música popular por cerca de 50 anos e dela só se separou quando começou uma nova época da música popular, cantada nos rodeios, com instrumentos fortes e retumbantes ( os chamados “metaleiros”) que silenciaram a viola, que voltou para o sertão. Mas o som suave e delicado de suas cordas não morreu. Continuou acalentando a arte e a vida da gente simples do interior.

Porém houve uma natural reação. Em São Paulo, principalmente, formaram-se duplas ou duplas e trios, em que dois cantavam e um terceiro atuava como instrumentista. A força econômica de São Paulo empurrou estes artistas de volta para a capital, onde passaram a cantar em várias rádios e televisões – com grande audiência de um público fiel e cativo. As gravadoras, atentas à evolução, promoveram duplas e trios, levando suas músicas para todo o país. Era o renascimento.
É desta época a famosa música Viola Cabocla, tão bem cantada e solada por Tião Carreiro e Pardinho. Basta recordar o primeiro trecho, para se ter a ideia do movimento artístico que se formou: viola cabocla, não era lembrada/ veio pra cidade sem ser convidada/junto com vaqueiros trazendo a boiada/ o cheiro do mato e o pó da estrada/fez grande sucesso com a disparada.

Com a consolidação da música popular, em seus diferentes estilos, as duplas se retraíram, mas a viola reapareceu, graças à insuperável atuação de solistas como Tião Carreiro, Renato Andrade, Zé do Rancho, Bambico, Chico Lobo, Pereira da Viola e muitos outros. A lista não teria fim. A turma jovem está também presente. Destaco o grande músico e violeiro Maxuell Mateus Gomes da Costa. O reconhecimento da viola como patrimônio cultural de MG é uma grande conquista da cultura mineira. Incorporada às nossas tradições, atuará em folias, congados, danças folclóricas, festas de Nossa Senhora, pequenos circos e em tudo mais que guarda e transmite a cultura popular, fazendo Minas se tornar ainda mais mineira.

Agora temos a certeza de que a viola cabocla viverá tanto na cidade como no sertão, pois a arte não lugar nem terreno único. Nos dedos hábeis dos violeiros, a música autenticamente sertaneja ( que não coincide com aquela que se mostra por aí) continuará seu caminho por cidades, rios, matas, céus estrelados e tardes morenas, mostrando a alma do nosso povo e as belezas de nossa terra.

Professor titular da Faculdade de Direito da UFMG
 

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