A 'herança maldita' de Daniel Nepomuceno

Alexandre Simões / 28/07/2017 - 06h00

As cobranças em cima dos dirigentes fazem parte da cultura do futebol no Brasil, país com a maior quantidade de grandes clubes, fenômeno provocado por uma marca exclusiva nossa, que são os campeonatos estaduais.

Além das fronteiras regionais, convivemos ainda com um ‘G-12’ de gigantes, algo inédito no mundo. E, nesse grupo, tem muito mais gente infeliz do que contente, pois o torcedor brasileiro, cada vez mais, tem como sinônimo de felicidade apenas a conquista de grandes taças.

É nesse contexto que analiso o momento do Atlético. O longo jejum de títulos quebrado com a inesquecível conquista da Copa Libertadores de 2013 foi um dos capítulos mais emocionantes e bonitos da história do futebol.

E a temporada seguinte, encerrada com a conquista da Copa do Brasil, competição na qual clube era coadjuvante, e numa decisão em que o adversário foi o Cruzeiro, fez o atleticano se acostumar com o paraíso.

Foi neste cenário que Daniel Nepomuceno assumiu a presidência, em 2015. E, se não bastasse a alegria que o clube tinha proporcionado à sua apaixonada torcida nos dois anos anteriores, ele ainda passava a ocupar a cadeira do dirigente mais popular da história atleticana, Alexandre Kalil, que teve essa condição comprovada na eleição para a Prefeitura de Belo Horizonte, no ano passado.

Na primeira temporada com Nepomuceno como presidente, o clube foi vice-campeão brasileiro. Na segunda, com a marca de “melhor elenco do Brasil” quase cravada na camisa, o Atlético foi o quarto colocado na Série A e o vice-campeão da Copa do Brasil.

Vamos fazer uma comparação – numa cidade com dois grandes clubes, elas regem o futebol. O Cruzeiro, que foi bicampeão brasileiro em 2013 e 2014, brigou para não ser rebaixado à Série B nos dois anos seguintes.

Os fracassos recentes no Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil fizeram o caldo entornar no Galo. E transformaram a Libertadores em “obrigação”, palavra adorada pelos torcedores dos 12 grandes clubes em seus protestos contra momentos ruins de seus times.

É mais do que justa a revolta atleticana. Um time com o orçamento que tem o Atlético não pode apresentar o futebol que vem jogando nas últimas partidas. Mas o Galo 2017 é só mais uma prova de que o futebol, cada vez mais, é um terreno instável. O equilíbrio é enorme, e ter o melhor elenco do Brasil ou o técnico mais cobiçado, como era Roger Machado, não são garantias de sucesso.

Daniel Nepomuceno e sua diretoria cometeram erros. Talvez o maior deles – apesar de a conquista Copa do Brasil de 2014 ter provado que isso não era necessário –, foi imaginar que grandes nomes são garantia de sucesso, com certeza pelo “efeito Ronaldinho Gaúcho”.

De resto, tudo me parece reação à “herança maldita” que o presidente do Atlético recebeu em 2015. A impressão é a de que, assim como a torcida, ele transformou em obrigação manter o ritmo das grandes conquistas que marcaram o fim do mandato de Alexandre Kalil. E gerir futebol assim, em tempos de tanto equilíbrio, é um passo decisivo para se fracassar.

E a cada fracasso, as atitudes vão transformando o processo de se chegar a um grande título ainda mais difícil. A falta de convicção no trabalho dos treinadores é uma prova incontestável da ansiedade de Nepomuceno.

Pelo momento, é difícil acreditar no sucesso do Atlético na Libertadores, última competição em que pode ganhar uma grande taça em 2017. Pela realidade do futebol atual, porém, não ouso duvidar de nada. Até porque o melhor elenco do Brasil pode resolver jogar futebol.

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