Em 40 anos, conseguimos matar o clássico mineiro

Alexandre Simões / 05/05/2017 - 06h00

As primeiras lembranças que carrego de decisões de Campeonato Mineiro foram vividas no ano de 1977. Tinha oito para nove anos e me impressionava como aqueles domingos foram diferentes de todos os outros. Sentia-se no clima que algo de especial aconteceria em Belo Horizonte. Parece que a cidade transbordava um misto de ansiedade com alegria.
Para minha sorte, Atlético e Cruzeiro fizeram duas finais de estadual em 1977. A primeira, no final de março e início de abril, referente ao torneio de 1976. A segunda, em setembro e outubro, valia a taça da mesma temporada.
Por todo lado via-se carros com bandeiras de um dos dois clubes passando. O destino era o Mineirão. O máximo que se ouvia eram gritos de “refrigerado” partindo dos atleticanos, ou de “cachorrada” dos cruzeirenses. Nada além disso. Nunca vi alguém arrancando a bandeira do outro ou atirando algum objeto contra o carro do torcedor rival.
Na primeira decisão, duas lembranças me marcam. Um soco de Darci Menezes, que foi expulso, em Reinaldo, ainda um garoto, mas já genial, que deixou o campo chorando para ser atendido, e Marcelo Oliveira, jogando com a camisa 12 do Atlético, marcando um gol em cada uma das duas partidas decisivas, ambas vencidas pelo Galo por 2 a 0, e correndo em direção à geral, com os cabelos longos, para comemorar com a Massa.
Da segunda final, minha maior recordação é do terceiro e decisivo clássico, que só aconteceu porque no anterior o uruguaio Revetria tinha marcado três gols, garantindo a vitória cruzeirense por 3 a 2, de virada, depois de ter perdido o primeiro jogo por 1 a 0.
Foram 122.534 pagantes no Mineirão. Mais uma vez não me recordo de nenhuma preocupação das pessoas de evitarem os torcedores rivais. Até porque, todos iam e voltavam nos mesmos ônibus.
Depois de 40 anos e vários reencontros entre Atlético e Cruzeiro em decisões, viveremos no domingo mais uma. E me deprime perceber como regredimos. O assunto dominante na final é briga de cartola pela imprensa, esquema de segurança, preço abusivo de ingresso, manobra para ferrar o visitante.
Não há como negar que por volta das 18h de domingo, metade da cidade, do estado, estará vivendo uma grande alegria. O título mineiro de 2017 estará decidido e atleticanos ou cruzeirenses estarão em festa.
Mas tenho uma triste notícia para os dois lados. Vocês viverão uma “festa” incompleta, que com certeza será marcada por xingamentos homofóbicos, clima de tensão, ambiente de guerra, num estádio acanhado, desconfortável e inseguro, que pode ter o recorde de público com pouco mais de 20 mil pessoas.
Em 1977, eu vi 122 mil no Mineirão. Com as arquibancadas lotadas de bandeiras, sem ninguém tentando imitar torcedor argentino, mas mesmo assim se divertindo, no embalo de duas charangas. E indo embora depois no mesmo ônibus, que não foi quebrado e serviu para transportar as pessoas ao trabalho na segunda-feira.
Me entristece perceber que em 40 anos, cartolas, torcedores e até nós, da imprensa, conseguimos “matar” o Atlético x Cruzeiro.
O que tenho visto nos últimos anos é a maior aberração da história do futebol mineiro. Quem fez isso com o Atlético x Cruzeiro não gosta de futebol. É apenas representante do torcedor atual, que prefere atacar o rival a se preocupar com o seu time. Mal sabem eles que a sobrevivência de um depende diretamente do outro.

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