Procura-se um ministro da Fazenda com peito de aço

Amália Goulart / 09/05/2018 - 06h00

A indústria siderúrgica brasileira amargou derrotas sucessivas por fatores externos alheios à capacidade de resposta por parte das empresas. O problema vivido pelo setor pode ser estendido a outras áreas, com maior ou menor intensidade.


Para se entender as perdas, é preciso mergulhar no espectro produtivo do aço. Os principais clientes das siderúrgicas são a construção civil, as indústrias de bens de capital, naval e automobilística. Televisão, geladeira, máquinas e até utensílios domésticos são feitos com aço. Por consequência, se a indústria vende menos no mercado doméstico, existem menos consumidores comprando, estando a economia desaquecida. Com isso, as empresas exportam o excedente. Mas nem tudo que produzem, conseguem exportar. Hoje, no mundo existem 735 milhões de toneladas de aço em capacidade excedente. Deste total, 400 milhões são da China. Com tanto aço dando sopa no mercado, os preços caem.

As siderúrgicas brasileiras operam com 68% da capacidade produtiva. Nos Estados Unidos, a capacidade é de 73%. O presidente Donald Trump quer incentivar a indústria local. Por isso, impôs barreira comercial a quase todos os países fornecedores, a chamada Seção 232, com taxação de 25%. Até aqueles que produzem o material semiacabado (fornecem o insumo para a indústria norte-americana), como é o caso do Brasil, entraram na ciranda.

Em terras tupiniquins, antes mesmo da decisão de Trump, as siderúrgicas já amargavam políticas públicas errôneas que mergulharam o país na mais profunda recessão. A produção brasileira de aço anual foi de 34,350 milhões de toneladas. Já o consumo ficou em 19,180 milhões. Conforme dados do Instituto Aço Brasil, a estimativa de se vender a mesma quantidade de aço, no mercado doméstico, que foi comercializada em 2013, ou 24 milhões de toneladas, é para 2027! Para piorar a história, no ano passado, 60% do crescimento do consumo aparente de 5,3% veio de importações. E a China domina o cenário. O “esquema” chinês afeta não somente o aço, mas setores como o têxtil e o calçadista. 

“A China tem a cara de pau de chegar em um fórum mundial e dizer que o problema não é a capacidade excedente de aço. O problema é que os países não crescem o que deveriam crescer”, problematizou o presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Melo. A crise iniciada em 2015 no país já provocou o fechamento de 45 mil postos de trabalho no setor siderúrgico.

Para tentar minimizar as perdas, representantes do setor deram início à negociações com o governo para que aumente a presença de conteúdo local nos contratos públicos de petróleo e gás. Uma medida que teve impacto significativo na gestão do ex-presidente Lula e que foi abandonada sob o regime Temer. O que propõem: aumento da proporção de investimentos locais que uma empresa deve ter para ganhar um contrato no Brasil. Até hoje, nenhum resultado prático. O setor também tenta, sem sucesso, negociar a ampliação da devolução do imposto que incide sobre o produto exportado (Reintegra) de 2% para 5%. 

“O setor não tem tido apoio concreto por parte do governo” disse Alexandre Lyra, CEO da Vallourec. De fato, o Brasil tem medo. Medo de incentivar, medo de brigar. Antes das medidas de Trump, o governo brasileiro já havia aprovado, em instâncias técnicas, medidas anti-dumping contra Rússia e China. Mas não quis implementá-las. Existe temor, por exemplo, do Ministério da Agricultura de que algum tipo de retaliação no aço possa afetar o agronegócio. O governo, ao que se sabe, está ao sabor dos temores. 

"O próximo governo precisa de um grande plano de desenvolvimento”, contemporiza o presidente da Usiminas, Sergio Leite. 
O que resta aos setores produtivos: a esperança de que o próximo ministro da Fazenda possa arrumar a economia para que o mercado doméstico supere qualquer lampejo de insatisfação que possa advir de problemas pontuais e externos. Resumindo: precisamos de alguém com peito de aço! 

 

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