A hora em que a porca torce o rabo

Boris Feldman / 14/03/2017 - 06h00

O casal fez as contas e decidiu comprar um carro zero km no valor de R$ 40 mil. O usado entrou no negócio como entrada e o resto dividido em 36 suaves prestações mensais. O que acelerou a decisão foram as despesas do carro usado: com quase 100 mil quilômetros, as contas da oficina vinham cada vez maiores.

Somados os salários do casal, a prestação representava cerca de 1/3 do que ganhavam. Pelas contas, daria para viver dignamente com o resto, desde que cortando algumas despesas não fundamentais, até liquidar a dívida. Outro argumento é de que, pelo carro ser novo e estar na garantia, dificilmente suas despesas iriam além do combustível e uma eventual troca de óleo.

Aí é que a porca torce o rabo e se explica o porquê de tanta inadimplência no financiamento do carro zero km: ninguém se lembra de somar na ponta do lápis todas as despesas mensais e anuais para a manutenção do carro, mesmo o zero km. Pois tem o IPVA, o DPVAT, a taxa de licenciamento e o seguro total. E várias outras, mensais ou esporádicas: combustível, estacionamento, revisões obrigatórias, pneus, bateria, troca de óleo, lavagem e outras.

Tudo somado, o casal pagaria cerca de R$ 1.000 mensais, fora a prestação, que é outro tanto. Nestas contas, não se considerou a desvalorização do carro, ou seja, quanto deverá ser complementado dentro de dois ou três anos para trocá-lo por outro zero km. A menos que se pretenda (pouco provável...) permanecer com ele pelo resto da vida.

Se as contas ficaram apertadas, na hora em que o casal ainda tivesse que enfrentar um imprevisto financeiro (gravidez e parto, por exemplo, não estavam na previsão), a grana não daria, no final do mês, para pagar a prestação. Sempre se tenta uma renegociação da dívida, mas meses depois as contas se enroscam outra vez. E, na terceira prestação atrasada, lá vem o oficial de Justiça bater à porta e pedir o carro de volta...

 

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários