Arte, torcida e moral

Cadu Doné / 06/12/2017 - 06h00

Com a recente explosão das denúncias de assédio no showbiz mundial – os casos de Harvey Weinstein e Kevin Spacey foram os mais alardeados –, reflexões acerca do clássico tema "moral/conduta do artista/intelectual, versus correção do ato de apreciar sua obra", voltaram com tudo. Proliferação de colunas, artigos. Os exemplos que podem preencher este tipo de debate são muitos: Heidegger, Richard Wagner e Nietzsche – com níveis distintos de solidez nos argumentos, é bom que se diga – frequentemente são associados ao nazismo. Roman Polanski e Woody Allen – aqui também é preciso ter cuidado para compreender a idiossincrasia de cada situação – talvez estejam mais presentes nos noticiários gerais em função dos escândalos sexuais aos quais são vinculados – corretamente ou não – do que por seus filmes geniais. Menos comentada é a complexa questão envolvendo Thomas Mann e a homossexualidade; para alguns biógrafos, o alemão comportava-se moralmente na sua vida cotidiana de maneira deplorável, e, entre outros pecados, destilaria preconceito contra gays – apesar de ele mesmo, supostamente, ser homossexual.

Enfim... Poderíamos continuar por horas. Curiosamente, no esporte, também são bastante numerosos os escândalos de condutas deploráveis, no campo pessoal, de estrelas de todo tipo – é bom deixar claro que, tanto no ramo artístico, quanto no esportivo, não entro no mérito por ora de quais acusações acho justas, quais me parecem pouco sólidas, exageradas... Para de certa maneira piorar o cenário, há as manchas éticas escancaradas nas biografias de dirigentes, chefes de entidades centrais no meio – não que na indústria cultural fenômenos análogos inexistam... Vira e mexe pipocam também rumores/provas em torno de manipulações extremamente variadas, muitas delas capazes de comprometer toda a essência do que seria a alma, o sentido do esporte. E, apesar disso tudo, ao contrário do que ocorre com regularidade no campo da cultura, na academia, nos círculos intelectuais, no âmbito esportivo raras são as indagações: afinal, é correto, moral; faz sentido torcer por determinado atleta, por certa agremiação?

Comentando um jogo recente entre Cruzeiro e Ponte Preta conheci, na cabine da Itatiaia, um italiano que sabia muito de futebol. Torcedor da Juventus, ele me pareceu, inicialmente, fanático por sua equipe de predileção. Quando chegamos a determinado ponto do papo, contudo, descobri: ele, no fundo, sequer seguia apoiando, minimamente, a "Velha Senhora". O motivo? Os escândalos de arbitragem que tiraram títulos do clube de Turim em 2006 – e de quebra, o rebaixaram para a Série B.

Juca Kfouri, corintiano confesso, não comemora o título brasileiro de 2005 – pela mácula deixada na competição pela "máfia do apito", embora o Timão não tenha sido por ela, ao que consta, beneficiado (o erro de arbitragem no jogo diante do Inter foi outra coisa).

Por um bom período, simplesmente não conseguia torcer pelo meu time quando este era comandado por um técnico que representa, para mim, quase tudo de ruim: atraso, aquele ar de malandragem exultante, que se vangloria com um sorriso de canto de boca; claro anti-intelectualismo, e longa folha corrida da mais pura desonestidade.

Nas manifestações gerais que vejo, todavia, comportamentos, sentimentos nessa linha são exceções. O "vencer a qualquer preço" costuma prevalecer. Deixando claro que há muitas diferenças entre esporte e arte no tocante em tela, e sem a pretensão de esgotar o tópico, fica apenas o convite à reflexão.

Na cultura, para mim, é preciso separar, em grande medida, obra e autor – em suma, é perfeitamente possível (e não se mostra moralmente condenável) regozijar-se com trabalhos geniais criados por crápulas. E no esporte? Como fica essa equação? Mais em breve.

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