Confesso que adorei

Cadu Doné / 01/11/2017 - 06h00

Não sem razão, Juca Kfouri costuma dizer que Tostão é o melhor colunista de futebol do Brasil. Entre outros motivos, pelo texto tão minimalista quanto envolvente. A modéstia de Juca o impede de colocar-se como referência em qualquer coisa. Eu diria, porém, não só que ele se posiciona num empate técnico com Tostão no topo da lista dos principais cronistas do esporte bretão no país como, curiosamente, compartilha com o craque ex-Cruzeiro os mesmos atributos na escrita: leveza, simplicidade que não acarreta perda intelectual; “menos é mais”. Para quem conhece o trabalho de Juca na imprensa esta descrição da sua forma de predileção é uma obviedade. Em “Confesso que Perdi” (Companhia das Letras), entretanto, esta característica revela-se no auge.

Em outro exemplo de generosidade, na ESPN, Juca sempre elogiou – merecidamente – a memória privilegiada de PVC. Associado primordialmente ao jornalismo combativo, investigativo, a uma abordagem que mescla cultura e política ao esporte Juca mostra, na obra recém-lançada, que anda com a cabeça no lugar. No tom, ponderado, exalando bom senso, e no que compete à capacidade que possui para armazenar/comunicar dados históricos. A fartura do seu HD seguramente não deixa a desejar à de um Alexandre Simões, um Celso Unzelte – ou do próprio PVC.

Se já coloquei que o cabotinismo passa longe de Juca, não surpreende que seu livro de memórias fuja do estereótipo dos relatos confessionais narcisistas. “Eu, eu, eu...”: nada disso! Conteúdo, informações, análises, rigor: o livro poderia muito bem estar na prateleira de história do Brasil, algo nessa linha. Mídia, esporte, comportamento, política: mergulhar no relato que Juca faz de sua carreira é reviver muito do que aconteceu no nosso país, no mundo, em todas estas áreas destacadas, dentro do recorte que ele realiza dos seus quase cinquenta anos de profissão.

As pessoas costumam julgar os outros de acordo com suas perspectivas. No cenário de obtusidade intelectual, de acirramento de uma polarização estúpida que vivemos é natural que reputem a comunicadores que se posicionam rótulos reducionistas. Juca, injustamente, como basicamente todos que botam o dedo na ferida, aqui e ali, é vítima disso. Quem ler “Confesso que perdi” minimamente munido de percepção, temperança, e competência avaliativa apreenderá: o autor nos brinda, sim, com uma visão que não poupa qualquer das dicotomias erigidas por aí.

Petista? “Poucas vezes vi tanta desonestidade intelectual num pleito sindical como ao fazer oposição a (Rui) Falcão”. Ou, ao falar de um plano para o esporte do Brasil que ajudou a criar: “O projeto foi entregue a Lula solenemente antes de sua posse e por ele passado para seu primeiro ministro do Esporte, então no PCdoB, Agnelo (‘cordeiro’, em italiano) Queiroz, que jamais o tirou da gaveta, e cometeu tantos malfeitos quando já governador do DF, pelo PT, que foi diversas vezes condenado por improbidade administrativa (...)”.

Idealizar o passado é outro traço comum à nossa raça pouco racional. Desmistificando alguns mitos, Juca nos aponta em diferentes momentos como a imprensa esportiva nacional, antigamente, também era repleta de mazelas. “(...) o Corinthians iniciou o ano seguinte sob um modelo de gestão que ganhou o nome de Democracia Corintiana, para desgosto da imensa maioria da imprensa paulista, reacionária como ela só. Apenas a Placar, o Jornal da Tarde e Osmar Santos apoiaram o novo modelo”.

Para quem enfrenta crises de consciência no jornalismo esportivo dos anos 2000 pelo baixo nível intelectual, pela passividade, pelo espírito de rebanho que predominam na área, após a leitura de “Confesso que Perdi”, resta uma certeza: Juca não é só um estranho no ninho hoje, na era, entre outras coisas, do jornalismo esportivo “engraçadinho”; ele sempre foi exceção...

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