Cruzeiro e Grêmio: teoria, prática, oportunismo e clichês

Cadu Doné / 23/08/2017 - 11h08

Um francês e um inglês aguardam ansiosamente para ver se uma nova máquina vai funcionar. É o primeiro teste. Mistério. A engenhoca não desaponta a dupla de cientistas. O britânico comemora a utilidade prática, a fruição perfeita da sua invenção. O gaulês, reticente, pergunta: “funciona na teoria?”.

Com um talento para contar histórias infinitamente superior ao deste colunista, Assis Brasil – escritor e professor simplesmente genial –, ao ponderar a respeito do pendor francês para o conceitual, o filosófico, nos brindou com esta anedota em uma de suas aulas recentes. Gaúcho com uma queda por Minas Gerais, e tricolor mais por prudência conjugal do que pelo fervor de quem segue o Grêmio até a pé, Assis provavelmente concorda: na prática, a trupe de Renato Portaluppi tem superado, em 2017, as mais panglossianas expectativas.

O futebol é curioso. Nas intermináveis e epidêmicas mesas-redondas quase todos vociferam – não raramente em meio à gritaria infernal peculiar aos adeptos de um formato tão tosco quanto supostamente sob medida para o gosto popular – a “inquestionável” superioridade técnica/individual do Grêmio. Sem as relativizações necessárias e quase sempre com o oportunismo, a subserviência a uma espécie de “resultadismo” decantados por aqui exaustivamente. Profetas do acontecido. Afinal, se hoje o Grêmio merece a alcunha de dono do futebol mais bonito do país, e se, ao lado do Corinthians, tem sido a equipe mais consistente pelos gramados tupiniquins, não dá para dizer que esta era a perspectiva no início da temporada. Ao montarem seleções que combinam o melhor de Cruzeiro e Grêmio, temos acompanhado goleadas dos pampas. 9 a 2, 8 a 3. O natural, em termos absolutos; o cenário, numa perspectiva francesa – e no começo do ano –, digamos, seria exatamente o contrário. 

Gilvan, Bruno Vicintin e companhia limitada fizeram ótimo trabalho no que se refere à montagem do plantel para 2017. O grupo celeste é talentoso, consistente, equilibrado. Manter Mano também foi um acerto – e espero que, em nome do planejamento, da inteligência, ele continue mesmo apesar de uma eventual eliminação nesta quarta. Num panorama em que prevalecem a falta de firmeza intelectual, a tendência de surfar de acordo com placares, e de apenas aderir a discursos que parecem adequados, como os resultados até aqui não foram particularmente exultantes, a vontade de achar motivos para criticar anda por aí, firme e forte, pavoneada; tipo arroz de festa, caçadores de likes: cheia de si e sem o mínimo pudor para perceber quão caricata é sua vulgaridade – nisso, pouco inglesa, nada francesa, e bastante brasileira...

Conforme já coloquei em coluna passada: curioso fico para contemplar o contorcionismo retórico dos “resultadistas” – alguém poderia dar a estes um verniz intelectual ligando-os a um tipo de empirismo pragmático tipicamente britânico: não, nada a ver... – caso o Cruzeiro vença a Copa do Brasil. 

Por enquanto, e independentemente do placar, reitero o que falei na Itatiaia algumas vezes: Geromel é o principal zagueiro em atividade no país, e Luan o melhor jogador do nosso combalido mercado interno; ainda assim, e noves fora também o crescimento surpreendente dos 300 volantes que o Grêmio possui, em termos de quantidade, homogeneidade, no papel, em teoria, para mim, o elenco do Cruzeiro segue ligeiramente superior. Desfalques, acaso, encaixe, aquela liga que transcende o mérito, o tangível; o andamento do ano, a sequência de eventos, o entrelaçamento entre estes, suas relações de influência muitas vezes intricadas, sutis, e decisivas; enfim... Tudo isso pode interferir no futebol. E é exatamente por poucos apreenderem essas nuances que frequentemente o discurso vale muito mais para a linha da erística do que para a honestidade/qualidade intelectual genuína. Vencer o debate: mesmo sem ter razão... 

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