Cruzeiro x Flamengo: qualidades e probabilidades

Cadu Doné / 27/09/2017 - 13h20

A temporada do Cruzeiro não tem sido pautada pela uniformidade no que se refere ao que se enxerga como a característica mais marcante do time – isto é: ela não foi sempre a mesma. Defeitos e virtudes não deram as caras de modo tão longínquo e imutável, pouco afeito a oscilações, ao longo do ano, até aqui. Houve o período promissor e de muitos gols durante considerável parte do Estadual e nos estágios iniciais da Copa do Brasil – adversários fracos, ok, relativemos (mas havia algo ali...); as semanas instáveis defensivamente já dentro do Campeonato Brasileiro – a “era Caicedo”, alguns diriam; a fase em que a equipe apresentava organização tática, consistência no combate, e pecava pela carência de fluidez no momento ofensivo, pela pouca capacidade de criar oportunidades em boa quantidade; e por aí vai... No todo, para mim, o saldo em 2017 vem sendo, se não brilhante, avassalador, ao menos positivo – lembremos, entre outras coisas, que os azuis estiveram castigados em patamares descomunais pelas contusões praticamente o tempo todo... E nas últimas semanas, o que temos enxergado?

Talvez uma espécie de volta um tanto repaginada – a versão atual é superior em diferentes acepções – aos meses em que os comandados de Mano colhiam elogios por determinada confiabilidade na retaguarda, e ouviam, aqui e ali, ligeiras ressalvas quanto à produção do ataque – e vejam bem: não afirmo que esta se mostre hoje ruim, e muito menos que a ausência de certa centelha de brilhantismo se dê por pecados treinador. Por qual motivo é necessário destacar esta faceta? Simples: praticamente inexiste preocupação quanto ao desempenho cinco estrelas na quarta no campo da destruição, da neutralização. 
Linhas espaçadas? Time defendendo pouco – e mal? Com a expertise de Mano neste tipo de trabalho? Improvável. Logo, somando-se prós e contras, esmiuçando a fundo os traços predominantes de um Cruzeiro recente, comparando-se a equipe com ela mesma – leia-se: atributos que esta possui, entre si, inclusive numa perspectiva que valoriza probabilidade e proporções –, notaremos que a aptidão para propor com intensidade, para exercer razoável pressão, encurralar o oponente, se impor, infiltrar, pisar na área, criar num nível satisfatório – em termos de quantidade e qualidade –, talvez seja o ponto mais incerto ligado ao presente da trupe de Mano.

Em função de todo o panorama descrito, dá para dizer até que, ao menos em teoria, a perda do peso especial do gol fora de casa na final não foi legal para o Cruzeiro. Óbvio inicialmente pelo simples fato de os mineiros terem marcado no Rio. Mas algo em certo sentido agravado no caso específico pela junção do placar advindo na ida aos predicados do time em questão.

Considerando a escalação celeste ideal, o setor que passa menos confiança para a torcida em geral é o da lateral direita. Romero é – merecidamente – adorado. Excelente. Mas num time tão forte, levando-se em conta que ele atua por ali improvisado – não que vá mal –, até por um prisma estritamente comparativo – o que se tem disponível nas demais posições –, e pelas circunstâncias terem impedido a vigência hoje de uma noção cristalina acerca de quem seria o real dono da “camisa dois” para Mano, este é o cenário.

Uma das mensagens que mais tenho recebido de torcedores nos últimos dias: “Mano precisa optar por Romero; Ezequiel no banco!”. Não creio que a decisão passará estritamente por preferência técnica/tática. Longe disso. O aspecto físico será apreciado e tem elevadas chances de prevalecer enquanto fundamento. Com o argentino, digo que o Cruzeiro ganharia uma peça que, no momento ofensivo, periodicamente, sobretudo se o time estiver precisando propor, furar um bloqueio, poderia afunilar, propiciar superioridade numérica pelo centro. Por outro lado, o risco de alguma desestabilização da primeira linha, de “abandono” deste posicionamento, seria maior. 

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