Futebol brasileiro, um antro de desonestidade

Cadu Doné / 20/09/2017 - 13h40

Vendo toda a repercussão do gol irregular feito por Jô fica claro que boa parte da comunidade do futebol pouco apreendeu uma verdade tão cristalina quanto longeva: o esporte bretão no Brasil há muito é completamente impregnado, já institucionalizou um leque infinito de condutas censuráveis – que poderiam subdividir-se em categorias intermináveis; entre elas, a desonestidade intelectual, de discurso. Mais preciso do que dizer que o “jogo bonito” carrega um arcabouço moral próprio, seria sentenciar que a modalidade aceita – tácita e expressamente – um código de falta de ética idiossincrático.

Não fiquemos, contudo, somente no oceano de possibilidades oferecidas pela cultura da malandragem circunscrita no futebol. A ausência não é apenas de lisura. O futebol, num sentido amplo, consagra o “vencer a qualquer preço” – não, não me refiro à obstinação, a nenhum aspecto louvável –, e funciona ao largo de qualquer preocupação com o essencial – aqui significando de certa maneira algo oposto à representação, ao que está na superfície, ao rótulo; estamos no plano de um diálogo com a filosofia, porém não no domínio da metafísica (logo, não trago à tona exatamente oposições como “Coisa em si” x “fenômeno”, “Vontade x representação”). Neste contexto, o verdadeiro mérito é em larga medida desconsiderado. Uma visão mais profunda do que seria por determinado prisma realmente vencer sequer é conhecida. Vale o resultado final, e ponto. Os meios? Dane-se...

Há uma beleza pouco reconhecida no ato de pedir desculpas ao adversário por ter vencido um ponto por sorte – acontece no tênis; normalmente quando a bola bate na fita e cai do outro lado de modo a praticamente inviabilizar a defesa do oponente, mas não somente. Nem acho que os tenistas, em geral, tenham queimado razoável fosfato refletindo sobre as implicações morais entrelaçadas à modalidade que praticam. Nem o maior gentleman do circuito, Federer – também um sujeito aparentemente inteligente –, deve ter despendido sequer um minutinho de sua existência tentando decifrar o imperativo categórico Kantiano; ponderando se Raskólnikov merece ainda que uma gotinha de crédito pela moral que edifica para sustentar internamente seus crimes; ou até, num plano mais pop – e tenístico –, arrazoando se o protagonista de Woody Allen em Match Point há de receber de nós alguma condescendência considerável na seara aqui trabalhada. Mas o tênis, sabe-se lá como, construiu um éthos infinitamente mais virtuoso, fino – nada de elitismo, frescura, antagonismo entre “raiz x Nutella”... –, e de bom gosto do que o futebol. Que perde no quesito em pauta não só para esta modalidade. Basquete, vôlei, sei lá... Até no MMA, no Telecatch (são a mesma coisa?) provavelmente deve-se estar melhor nessa área. 

Reclamações durante 90 minutos independentemente do que foi visto, do que é óbvio para todos; cera num patamar descomunal, toquinhos matreiros para o lado com intuitos diversos, barreira que SEMPRE anda; tentativas de ganhar no grito, ou ao pé do ouvido do árbitro, simplesmente o tempo todo e, de novo, independentemente do conteúdo, da consciência de que o que se diz não é justo, não é verdade; entrevistas que brigam com imagens indiscutíveis e que SEMPRE puxam com parcialidade e cara de pau inacreditáveis, sem qualquer critério e preocupação com a coerência, para o próprio lado; frequência absurdamente superior à de qualquer outra modalidade de contato de episódios em que busca-se ludibriar cavando faltas ou em outras ações afirmativas; exaltação, torcida, “secação”, mandinga, e se possível ação para que se tenha um adversário sem suas condições ideais, em detrimento da sensibilidade para apreender que o mais bonito, o mais louvável seria superá-lo, enfrentá-lo em sua plenitude; enfim... Tudo isso e eu mal comecei...

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