Futebol e Black Mirror

Cadu Doné / 29/11/2017 - 06h00

Junto à The Wire e à primeira temporada de True Detective, Black Mirror é uma das melhores séries de drama dos últimos anos. Distopia, “fake news”, pós-verdade: termos da moda, surrados em certo sentido; tudo isto está lá – e bem retratado. Um dos pontos centrais de Black Mirror, contudo – e isso escapa bastante às análises vistas por aí acerca da série –, é uma fraqueza humana inata e, obviamente, completamente anterior, independente do imaginário cibernético de Charlie Brooker: a preocupação com a opinião alheia, com a imagem; a angústia, o estado de ansiedade, de constante tensão que costuma se atrelar à sensação de que – talvez ou certamente – estamos sendo constante ou pontualmente avaliados. Redes sociais, internet, aparatos tecnológicos distintos – em seus estágios atuais e/ou nos de anos vindouros escabrosos (e não usualmente inverossímeis) retratados em Black Mirror – podem, claro, em diferentes acepções, agravar, estimular a paranoia, o sofrimento relacionados à citada fraqueza primária da nossa espécie. Criar/se entrelaçar com novas facetas ligadas a este nosso defeito. Seja pelo lado mais óbvio e normalmente debatido da série – distopia, “fake news”... –, seja por essa nuance menos notada que trago à tona – ambas se amarram... –, Charlie Brooker poderia muito bem inserir o futebol numa de suas tramas – ele é britânico; as chances teoricamente aumentam...

Já escrevi neste espaço: o submundo do futebol dentro das redes sociais – ou caixas de comentários –, fornece material quase sem paralelos para refletirmos sobre a ignorância humana. Incapacidade total de julgar, injustiça/crueldade nas “análises”... Logo, basicamente qualquer pessoa pública da área que der uma passeada por estes locais colocará à prova seu estoicismo. Com o tempo – natural ou forçosamente –, pelo menos em determinados sentidos, quase que por mero instinto de sobrevivência, ele pode se desenvolver. No último capítulo da terceira temporada de Black Mirror, em três casos diferentes de achincalhamento on-line materializados por meio de hashtags cruéis, modos distintos de absorção: a jornalista ali retratada parece não ligar – talvez por ser mais calejada; a jovem vítima da repercussão desproporcional e insensata de uma foto infeliz que ela mesma postou claramente sofre; nos trechos dedicados à polêmica vivida por um rapper, não há muito subsídio para conclusões neste ponto. Fato é que, tranquilamente – e aqui me baseio em várias situações já ocorridas e de domínio público –, o capítulo mencionado poderia narrar o martírio de uma jornalista esportiva, o calvário de uma torcedora, e a via-crúcis de um jogador.

Mudando a prosa para o enfoque mais escancarado de Black Mirror, também chegamos a possibilidades infinitas de casos advindos no esporte bretão. “Prints” falsos de supostas conversas entre jogadores, dirigentes (...) circulam a torto e a direito com frequência absurda. No evento desta natureza que gerou a “fake news” mais avaliada como tal – provavelmente virará “case” –, recentemente, Moisés, meia do Palmeiras, foi injustiçado.

O vínculo, as reações do Estado frente a esses problemas de uma nova ordem da tecnologia, da informação, da comunicação também fazem parte do universo temático de Black Mirror. E se trocarmos o Estado por clubes/instituições do futebol, e políticos por dirigentes, com pequenas adaptações, encontraríamos novos motes – retirados de casos reais – para a mente brilhante de Brooker. Fala-se, por exemplo, do papel de “robôs” em eleições já há algum tempo. Sim, eles trabalham também para construir/destruir reputações no futebol. Dirigentes rivais – normalmente associados ao mesmo clube, é bom que se diga –, torcedores desocupados, dinheiro fácil: a equação é simples. Já os desdobramentos... Invariavelmente tão cruéis quanto irreversíveis...

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