Jornalismo – quase – moribundo

Cadu Doné / 11/10/2017 - 11h30

Enquanto jornalista que trabalha com opinião, talvez a angústia mais forte e frequente que vivo é: saber que um dirigente, um político, um companheiro de profissão – há misturas inacreditáveis entre dois ou todos esses itens – é completamente corrupto, um crápula, mas, por não ter provas materiais suficientes, não poder construir determinada análise em cima destes fatos – que seriam primordiais para que ela estivesse num nível ideal de contato com a verdade, tendo em vista a natureza do objeto apreciado. Quando isso ocorre, invariável, e às vezes momentaneamente, somos obrigados a tergiversar. Falar platitudes. Não defender, exaltar, passar a mão na cabeça. Nunca! Não tocar no ponto central, porém. E isso já faz com que eu me sinta um mer**...

Experienciar esse tipo de dilema provoca a sensação de impotência. Mas e aí? Como proceder a partir de então? Cairíamos numa espécie de aceitação, conformismo? Não! Como jornalistas, conhecemos incontáveis ladrões no esporte, na política – de novo: integrantes de ambas as “bancadas”... E se até por questões legais precisamos de alguns amparos para veicular essas verdades, ao invés de desistir de fazê-lo, deveríamos cultuar a combalida, maltratada, quase inexistente matéria-prima do nosso ofício: o jornalismo investigativo.

Há um movimento que me soa pouco estratégico, até do ponto de vista comercial, acontecendo nas redações: com a crise financeira – e existencial, de relevância... – assolando inúmeros veículos, os primeiros cortes quase sempre têm se voltado para o núcleo, para profissionais das matérias frias, mais pensadas, mais investigativas. Uma pena sob o prisma ético e intelectual; um tiro no pé, talvez, no bolso de muitos que só nisso pensam.

A internet oferece movimentação constante de conteúdo. Acesso infinito a notícias mais “básicas”. No caso do futebol, por exemplo, os próprios clubes cada vez mais limitam a entrada nos espaços do seu dia a dia. Ao mesmo tempo, em suas TVs/sites próprios, abastecem os torcedores com pílulas acerca do “noticiário” mais mundano: como foi o treino, quem se machucou, quem está suspenso, quando será a viagem...

E a opinião? “Especialistas” inundam a internet com ela o tempo todo. Quantidade total. Qualidade zero. Conforme já escrevi aqui há muito tempo: Umberto Eco; redes sociais; voz para idiotas...

Ora... Se o factual mais básico vira domínio público hoje facilmente, e o que mais se vê são achismos epidêmicos completamente desamparados de um arcabouço intelectual minimamente digno de nota, tudo isso frequentemente até de modo independente do trabalho da imprensa, em que esta última deveria apostar? Pelo menos em boa medida, em análises mais densas e jornalismo investigativo. Para este último, indispensável é a expertise, o tempo de dedicação, a paciência, o conhecimento de fontes e técnicas num sentido bem próprio de quem milita na profissão; não é qualquer adolescente espinhento fake escondido atrás de um escudo de clube que, do nada, do seu quartinho, vai descobrir as falcatruas de um Nuzman, um Marco Polo Del Nero – e olha que são muitas e eles nem sempre as escondem tão bem... E revelações desta natureza são as mais importantes que a imprensa esportiva DEVERIA fazer. 

Por essas e outras, para ser verdadeira e plenamente relevante nos tempos de Internet, o jornalismo há de voltar suas asinhas para aquilo que sempre esteve na sua origem, e há muito encontra-se quase perdido: jornalismo é dizer aquilo que certos personagens/protagonistas não querem ouvir; jornalismo é desapegar-se da tara de ficar amiguinho de todo mundo e ter livre acesso a boquinhas mil para parecer “importante”; é apurar com cuidado, qualidade, profundidade; é priorizar o que interfere realmente na vida da população, no poder de determinado meio – em suma, ter o interesse coletivo como crivo indispensável.

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários