O melhor, disparado...

Cadu Doné / 08/11/2017 - 06h05

Guardiola não é só o melhor técnico do mundo. Ele se encontra em uma dimensão própria. O segundo colocado – Klopp? Simeone? Conte? – aparece tão distante dele, e esta disparidade é tão multifacetada, profunda, que não há conversa. É impossível fundamentar todas as razões que edificam este cenário que descrevo em uma só coluna. Há anos venho escrevendo sobre diferentes nuances do atual comandante do City; seguramente, muito resta a dizer. Iremos nos ater hoje, portanto, a alguns míseros pontos que constroem essa superioridade – em meio aos incontáveis possíveis...

 

Constantemente surge o debate – para mim, um tanto inócuo: o que torna um treinador especial? A capacidade de impor sua filosofia, com qualidade, independentemente das circunstâncias? Ou a aptidão para dançar conforme a música, para se adaptar, por exemplo, ao elenco que lhe é oferecido? Não há receita de bolo nisso. É possível ser excepcional se enquadrando em qualquer um dos perfis, misturando doses de ambos... Fato é que, “de um lado ou de outro”, ninguém tem sido tão completo e tão consistente quanto Guardiola. 

 

Comecemos pela parte mais fácil: a imposição competente, eficiente de uma identidade. Propor, construir, obsessão pela bola; contemplar na prática estes preceitos driblando o caráter errante, o acaso tão afeito ao futebol; o grau, a forma, a longevidade com que Guardiola vem obtendo sucesso nesta acepção, por si só, por determinado prisma, já basta para colocá-lo como o maioral. As discussões em torno da dicotomia “posse/controle x reação/transição” infelizmente banalizaram-se, em grande medida. Curioso é: não só o caso de Guardiola é peculiar nesta seara a ponto de ele posicionar-se fora, acima do que se aborda normalmente nas querelas mais simplórias a esse respeito como, talvez num aparente paradoxo – e quase certamente num sinal de como ele é bom –, este modismo temático surgiu apenas por causa dele. É provável que nunca uma filosofia tão autoral, tão idiossincrática tenha gerado tanto sucesso com seu adepto – englobando aqui aproveitamento e assiduidade, duração da fase favorável (a carreira dele toda, no caso) –, em termos de resultado e desempenho, na história do futebol, quanto aquela que aplica Guardiola. Êxito direto – nas conquistas do próprio – e enquanto influenciador: Espanha e Alemanha não conquistariam o mundo – ao menos do modo como o fizeram – sem a passagem tão vanguardista – e avassaladora – de Guardiola pelo Barcelona – e vejam bem: sei dos fragmentos de um “tiki-taka” exibidos pela Fúria chefiada por Aragonés em 2007; mas...

 

Aqui e ali escutamos buchichos de que Guardiola, de alguma maneira, seria samba de uma nota só; não teria flexibilidade para harmonizar-se com as situações que lhe surgem; que ele “forçaria” suas concepções por suposta estreiteza de horizontes. Santa ignorância...

 

Quando chegou ao Bayern: vai fazer de Götze um “falso 9”? Não “gosta” de centroavante? Não só consagrou Lewandowski como criou mecanismos para aproveitar os predicados do seu homem gol, passando, entre outras coisas, a utilizar com bem mais frequência a bola aérea – sempre com repertório, em jogadas conscientes, trabalhadas; nada de chuveirinho... Nesta linha, no City, em boa parte dos jogos da temporada até aqui escalou Agüero e Jesus como dupla na acepção da palavra – nos dois últimos triunfos, gigantescos, o brasileiro ficou no banco.

 

O 3-4-3 de Conte na temporada passada virou epidemia na Premier League já durante a campanha vitoriosa dos Blues. Em algumas circunstâncias, seja para espelhar, ou por outra razão qualquer, Guardiola entrou na dança. Não o fez, porém, de forma definitiva e um tanto amarrada, por exemplo, como Wenger. Tem adotado novamente o 4-3-3 como seu sistema referência, e diante de um Arsenal ainda casado com sua cópia de um Chelsea campeão, provou-se superior, inclusive, taticamente.    

     

    

 

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