Políticos x Cartolas. Torcedores cegos x Eleitores fanáticos

Cadu Doné / 25/10/2017 - 17h21

Ver muitos veículos da chamada grande mídia batendo em Nuzman, agora, só agora, com ares de “independência”, de “jornalismo coragem”, após anos de omissão e/ou oba-oba, me lembra das manchetes em que várias destas mesmas empresas, hoje, só hoje, criticam Aécio – somente quando a casa caiu de uma forma que, nem para o mais protegido, para o incrivelmente poupado, dava para aliviar totalmente. Um adendo ligado ao caso Nuzman: ninguém no país fez trabalho tão brilhante esmiuçando, investigando tudo o que compete à roubalheira no nosso esporte, nos últimos anos, do que Lúcio de Castro e Juca Kfouri. E que o primeiro, profissional tão único, tão exemplar, se encontre fora da mídia mainstream, diz muito sobre o jornalismo brasileiro, as prioridades deste.

Ouvir o silêncio ensurdecedor dos paneleiros seletivos me remete aos torcedores/técnicos/jogadores/dirigentes que só falam mal da arbitragem quando ela os prejudica; à cultura do futebol de levantar o braço, xingar, espernear só pelo próprio time, a despeito da ausência de ínfima certeza se a justiça, a razão estão sendo contempladas.


Ler a surreal notícia de um prefeito/presidenciável que quer dar uma espécie de ração aos menos favorecidos, traz à mente os dirigentes oportunistas que elitizam um esporte popular e, no desespero, quando se aproximam do rebaixamento, por exemplo, fazem promoções para “ter o povo ao lado” – e nas entrevistas, de peito estufado, pavoneados, se sentem os verdadeiros “cidadãos de bem”.

Conversar com pessoas que se recusam a reconhecer qualquer erro em Lula, que negam como em grandíssima medida ele seguiu caminho oposto, eticamente, inclusive, ao que pregava; que se irritam diante da mera observação de que Lula, publicamente, quase nunca se defende entrando claramente no mérito das questões, preferindo largamente a retórica, a erística, o tentar “vencer o debate sem ter razão”, me leva de volta aos papos do recreio no colégio, quando, depois de um clássico, inúmeros colegas se recusavam, por exemplo, a reconhecer que uma torcida tinha sido maioria na tarde anterior – isso num cenário de 80 a 20%; bastava olhar...

Quando digo que há ignorância ao não se compreender que retratar algo na arte não significa obrigatoriamente com aquela ideia exposta compactuar, não indica automaticamente panfletagem; que Flaubert não era necessariamente adúltero por ter construído Madame Bovary; que tampouco Philip Roth é machista por haver edificado figuras com supostos – ou reais – traços de misoginia, percebo que quase todos os machões do teclado que me xingam por defender essas coisas, por criticar a censura à arte, são os mesmo que fizerem troça quando citei em alguns programas determinados jogadores que são bonitos. Ao essa coincidência notar não me esqueço do quão retrógrado é o ambiente do esporte bretão, e relembro de como certas ignorâncias muitas vezes se misturam, chegam em bloco, funcionam quase por associação, na construção de uma agenda – em tempo e dando mais um elemento para esta última colocação: pesquisando em suas páginas pessoais observei, conforme esperado, que a esmagadora maioria dos personagens aos quais me referi neste parágrafo são “Bolsominions”.

Há paralelos infinitos entre política e futebol. Entre políticos e cartolas. Entre as mazelas destas duas editorias na imprensa. Entre o torcedor cego e o eleitor fanático. Nesta linha, claro, falar em Fla x Flu ideológico procede. Mas diante de tanta baixeza moral, de tanta nulidade intelectual, é quase uma subestimação. É ficar na superfície de uma política onde não temos para onde correr, de um eleitorado cujo nível de ignorância precisa ser mais bem estudado se quisermos realmente entender nossas enfermidades. Falemos, talvez, do pior Fla x Flu ideológico possível, de um disputado por marginais típicos infiltrados em torcidas organizadas despidos de um par de neurônios. Aí sim, quem sabe...

 

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