Queremos raça

Cadu Doné / 30/08/2017 - 12h58

Quando se pede “raça” nos estádios brasileiros; quando o cântico “time sem vergonha” ecoa nas nossas arenas, muita gente do futebol, já calejada com relação aos códigos, signos e costumes do meio sabe que, no fundo, as massas estão simplesmente reclamando do time. Talvez sem alvo específico no que se refere à característica que estaria ausente. O problema é tático, técnico, motivacional? Não se sabe, tanto faz, e o que acaba dito não necessariamente é para ser levado ao pé da letra. Em inúmeros sentidos, estes protestos são difusos, errantes. O intento, o motor da queixa é desopilar. E marcar território. O conteúdo, neste contexto, é o menos importante.


Em outras circunstâncias, contudo, e de maneira um tanto distinta, nas avaliações que os fãs fazem de suas agremiações que não andam lá tão bem das pernas, um dos discursos mais populares segue sendo o de que falta vontade. Numa fundamentação invariavelmente simplória, busca-se uma resposta com um quê de universal, de redentora. “Tirar as estrelas” e “colocar a base” costumam ser proposições que se seguem às admoestações em torno da suposta carência de compromisso.

Se você perguntar para estes mesmos arautos qualquer coisa que gire ao redor do tema “egocentrismo, individualismo, e vaidade dos medalhões” – isso quando o esquadrão está mal, claro –, eles não hesitarão: os atletas mais caros, com aura de popstar, só ligam para dinheiro, marketing, imagem. São primas-donas difíceis de lidar e que fazem corpo mole diante da primeira contrariedade. Mais uma vez, o tipo de fala assinalada corre sério risco de cair num populismo que pouco – ou nada – esclarece. Pior: não raramente estas repreensões agravam a situação ao buscar pregar nos talentosos o rótulo de – falsos – vilões. Nesta esteira, justamente aqueles que carregam consigo maior potencial para virar o fio para o lado positivo acabam queimados, retirados, escanteados exageradamente.


O que não se percebe ao se associar preocupação com imagem e falha no aspecto de entrega em campo é a possibilidade de uma contradição corriqueira: na medida em que o atleta sabe – até por uma espécie de osmose, tacitamente – que no código futebolístico a demonstração de raça pega bem, e que a vaidade quase sempre se atrela ao desejo de obter sucesso no juízo alheio, de cair no gosto das massas e/ou das pessoas próximas, justamente para ganhar mais elogios do que críticas – e não por ser “bonzinho”, e/ou pela ética/moral na essência da coisa – os jogadores frequentemente procuram atingir um patamar minimamente considerável de esforço nos gramados. Sabem aqueles carrinhos completamente inúteis que precedem arroubos tão exagerados quanto fakes, caricatos, na esfera da expressão corporal, por sua vez logo acompanhados de urros de uma multidão anestesiada, condicionada, nos moldes daquela que responde automaticamente aos chamados de “Springfield!” em vários momentos de “Os Simpsons”?


A transformação dos jogadores em celebridades é criticada por muitos torcedores que, apenas na aparência, ou de fato, anseiam por um futebol “de raiz”. Não se deve deixar de contextualizar nesse fenômeno, porém, a participação do público – muitas vezes até dos próprios reclamões citados: não fosse a demanda por uma cultura de fofocas, a aspiração/valorização da fama por parte gigantesca da população sem qualquer crivo do bom senso e capacidade coletiva de avaliar corretamente o mérito, o intelecto, essa máquina não giraria. E assim como a futilidade epidêmica, a baixeza de espírito da nossa espécie propiciam aos atletas paparicos e benefícios bem desmedidos, insensatos, outros defeitos, limitações do âmago humano ocasionam em momentos distintos uma inversão também desproporcional e incorreta do jogo: a implicância pouco abalizada com quem tem dinheiro e renome, badalação. 

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