Uma virtude de Oswaldo de Oliveira

Cadu Doné / 04/10/2017 - 06h00

Oswaldo de Oliveira, desde quando despontou no Corinthians, conserva uma característica que, em geral, vejo como uma virtude: procura normalmente reunir entre os titulares, do meio para frente, o maior número possível de atletas talentosos, habilidosos. Ainda que, teoricamente, aspectos como a recomposição por um dos lados, por exemplo, possam surgir como uma preocupação a partir desta opção. Este traço do atual técnico do Galo pode soar um tanto mundano, talvez simplista; algo que carrega uma aura de obviedade. Ledo engano...

Falando de diversas seleções do planeta, em várias ocasiões, destaquei por aqui como quase sempre não se vê na prática, em campo, a formação que seria a mais condizente com o critério “reunião máxima de qualidade” dos atletas daquela nacionalidade. Eis neste cenário, portanto, um dos meus exemplos preferidos para mostrar como comandantes em geral frequentemente gostam de, por certo prisma, se complicar – entre outras coisas, por uma espécie de falta de ambição; afinal, se a abdicação de determinadas pretensões estratégicas às vezes denota anti-intelectualismo, usualmente enxergo como ideal (e mais ambicioso, no bom sentido) o técnico que une as duas coisas: sofisticação tática a partir da busca por agrupar a maior quantidade de talentos. 

Algo curioso/interessante aconteceu no jogo do Galo no último domingo. Oswaldo levou à máxima potência a tendência que estamos esmiuçando neste texto. Elias foi segundo volante; Cazares, Robinho e Fred jogaram juntos – e lembremos que nem Luan, melhor na recomposição, esteve em um dos flancos; Valdívia (também bem agressivo, estritamente ofensivo) completou o trio de meias. E isso fora de casa. Contra um time que, convenhamos, se não é um bicho-papão, não integra o rol dos mais inofensivos do campeonato – nem na teoria, em termos de potencial, nem na prática. A quebra de paradigma foi grande, de certa maneira. Afinal, olhando a temporada como um todo, nenhum dos pontos acima citados foi exatamente o padrão sequer isoladamente – isto é, por exemplo: mesmo com Elias de meia pela direita, para muitos parecia imprudente reunir Cazares e Robinho; ou: independentemente de qual seria a combinação de armadores falava-se não raramente que Elias, em nome da segurança, não deveria ser segundo volante; e por aí vai... Quem dirá numa junção total!

No domingo, Cazares recompôs com mais entrega. Tenho observado há muito: entre Robinho e o equatoriano, para que os dois joguem juntos, me parece mais justa/acertada a cobrança para que o segundo, mais novo, seja o responsável por fechar um dos lados. Nesta linha, ao menos em termos comparativos, Robinho foi injustiçado em diversas oportunidades – recebendo chumbo de todo lado por ser supostamente o principal responsável por uma falta de equilíbrio defensivo da equipe enquanto o equatoriano passava razoavelmente incólume nesta seara.

Imaginando um momento defensivo com duas linhas de quatro mais envolvidas na marcação, e duas peças mais livres, incumbidas de cercar a saída de bola, por que em geral não se vê há muito tempo que Fred e Robinho devem ser esses caras, digamos, menos compromissados com o retorno para a defesa? Cazares é enganche? Prefere atuar centralizado? Sim, eu sei. Mas entre prós e contras, conforme coloquei, ainda assim é mais adequado pedir para ele recompor do que exigir isso de Robinho. E mais: para contemplar-se o intento de agrupar todos os mais talentosos, na maioria das situações, um (ou alguns deles) precisa se sacrificar. Cazares há de entender isso. E o Galo precisa de um treinador que se esforce muito para emplacar essa ideia. Parece que, neste aspecto especifico, Oswaldo pode ser o nome certo – mas é bom ter cautela; lembremos que, neste e em outros pontos, ele carrega semelhanças com Marcelo Oliveira; que não vingou... Se o será na prática e em outros quesitos, só o tempo dirá...

 

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