A civilização e o fundamentalismo

Editorial / 08/01/2015 - 07h30

Paris, a Cidade Luz, estremeceu sob o estampido de tiros de fuzil na manhã de quarta-feira. Demonstrando sangue-frio, homens armados invadiram a redação de um jornal semanal cuja única arma é o humor e executaram 12 pessoas, ferindo outras várias. Ao sair do prédio, gritaram “vingamos o profeta” e “Deus é grande”, em uma aparente referência ao islamismo e ao profeta Maomé, que figurou em desenhos satíricos do semanário “Charlie Hebdo” anos atrás.

Paris tem o nome de “Cidade luz” porque foi o berço do Iluminismo, a profusão de conhecimento que surgiu na Europa nos séculos XVII e XVIII e que influenciou todo o mundo ocidental. O movimento defendeu o uso da razão como o melhor caminho para se alcançar a liberdade, a autonomia e a emancipação. No final do século XVIII, a Revolução Francesa eternizou os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.

É por isso que o atentado terrorista em Paris se reveste de um ataque direto aos valores do Ocidente, principalmente a liberdade de expressão, representada pelas artes e a imprensa. No debate que se seguiu à matança no jornal francês, alguns especialistas comentaram que não se deve tripudiar sobre as crenças religiosas, por ferir sentimentos profundos. É fato, principalmente em se tratando do islamismo, cujos fiéis são fervorosos seguidores de seus ensinamentos.

O que se tem nesse episódio é o verdadeiro choque de civilizações. O Ocidente liberalizante contra o Islã, que em muitos aspectos ainda se encontra em um período similar à Idade Média, quando a igreja católica mergulhou a Europa no mais profundo obscurantismo. O Iluminismo surgiu justamente para libertar o continente desse período de trevas.

A França é o país europeu com maior número de muçulmanos, em torno de 5 milhões, o que dá quase 10% da população. Essa mescla populacional é fruto das antigas colônias do país sobretudo no norte da África, majoritariamente islâmico. Mas, nos últimos anos, vem crescendo a islamofobia entre os franceses. A França enviou tropas ao Afeganistão e participa dos ataques aéreos contra o Estado Islâmico no Iraque.

A imensa maioria dos muçulmanos é contrária à violência praticada pelos radicais fundamentalistas. Pelo bem da civilização, é melhor evitar essa nova Cruzada.

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