Histeria coletiva

Editorial / 11/05/2017 - 06h00

Os grandes meios de comunicação e o mundo político se voltaram para Curitiba ontem para acompanhar o depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro, dentro de um dos processos da operação Lava Jato, que investiga um grande esquema de corrupção envolvendo o governo federal. No caso específico, o Ministério Público acusa Lula de conceder vantagens em sua gestão a uma construtora em troca de um tríplex no Guarujá. 

Emissoras de todo o país com flashes ao vivo, acompanhamento em tempo real nos portais, esquema de segurança reforçado, manifestações de apoio e de crítica ao ex-presidente fizeram da capital paranaense o centro o país durante algumas horas. Todo esse espetáculo foi armado para apenas um ato dentre dezenas de outros realizados na mesma ação. Um depoimento, mesmo que seja de uma das principais figuras do processo, não pode gerar uma verdadeira convulsão social, conflitos e discussões. 

A Lava Jato deve continuar o seu trabalho de apuração de graves crimes contra o país e punir quem os praticou, sobre isso não há dúvidas, mas os seus atos já deixaram de ter um ineditismo que justifique tamanha histeria coletiva. O esquema já foi identificado e muitos de seus operadores presos – alguns até já foram liberados. O processo entra, então, em uma fase um pouco quanto burocrática, seguindo os trâmites previstos em lei (como deve ser), com garantias de ampla defesa de todos os citados em delações, suspeitos indiciados e acusados formalmente. Nada tão comum e que ocorre diariamente, milhares de vezes em fóruns do país. 

O depoimento de Lula é apenas um depoimento e deve ser encarado assim até uma decisão de Sérgio Moro sobre se o que o MP denunciou tem base ou não. Como o conteúdo desse processo é bastante conhecido, inclusive do público, Lula teve tempo suficiente para se preparar. Não deverá haver surpresas. 

A espetacularização de uma ação judicial faz com que outros fatores externos possam estar bem próximos aos trâmites legais, aumentando o risco de uma espécie de “contaminação” dos autos pelo o que ocorre nas ruas. Assim, o risco de influência externa em uma decisão que deve ser estritamente técnica é aumentado, o que vai de encontro ao que se pretende, que é fazer justiça. E todo o cidadão de bem quer que tudo seja, sim, esclarecido e que a punição dos possíveis culpados seja justa. 

 

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