Janaúba chora e abraça suas vítimas

Editorial / 07/10/2017 - 06h00

Talvez não haja coisa mais triste neste mundo do que enterrar uma criança. Aquele corpinho pequenino, tão frágil, que teria uma vida inteira pela frente, imóvel, deitado no caixão branco coberto por flores, é uma cena que dilacera até o coração mais duro. 

Pois  Janaúba, cidade com  70 mil habitantes, dormiu e acordou diante dessa tragédia. Até ontem, sete crianças, todas de apenas quatro anos, morreram no atentando cometido na creche Gente Inocente pelo vigia Damião dos Santos. Segurança da escola, ele ateou fogo na instituição de ensino, no próprio corpo e nos meninos e meninas. 

Com quase 90% do corpo queimado, Yasmin e Cecília lutaram bravamente pela vida. Perderam a batalha na Santa Casa de Montes Claros, deixando familiares inconsoláveis e sem chão. Juntaram-se às outras cinco crianças que partiram e à heroica professora Heley. Como seguir adiante? 

Algumas crianças são veladas nas próprias casas. A tradição é mantida há anos no município do Norte de Minas. Mesmo tomados pela dor, os moradores não deixam faltar o cafezinho, o biscoito, o carinho e a prosa. Quase sempre há uma fotografia da criança sobre o caixão, com direito a um sorriso bonito e alegre. Bem diferente do rostinho  queimado, praticamente todo consumido pelo fogo. 

Janaúba é assim. Uma cidade onde quase todo mundo se conhece, se cumprimenta, se ajuda. É um povo de uma cordialidade e de uma simplicidade que abraça a alma. Ruan e um coleguinha morreram justamente abraçados. Um tentando ajudar e apoiar o outro. 

Ruan fez 4 anos em 9 de setembro e pediu ao pai um violãozinho. Ganhou o instrumento musical no dia anterior à tragédia. Durante o velório, o pai ficou todo o tempo abraçado ao brinquedo. 

O abraço. Foi assim que o vigia, que era conhecido com Damião Picolé, conseguiu que o fogo se espalhasse para o corpo das crianças. Ofereceu a guloseima, atraiu as presas inocentes e as abraçou com o corpo já em chamas e envolto de combustível. Além das sete crianças que não resistiram aos gravíssimos ferimentos, há outras várias em hospitais, em tratamento. Que sejam pequenos guerreiros e tenham força para superar o sofrimento do corpo e da mente. 

 

 

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