A condenação de Lula

Frei Betto / 22/07/2017 - 06h00

Não há no Brasil, hoje, nenhuma força política com suficiente representatividade para promover mobilizações de rua significativas

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado a 9 anos e 6 meses de prisão, em sentença assinada pelo juiz Sérgio Moro. Ao contrário de outros condenados em primeira instância na Operação Lavo Jato, Moro evitou decretar a prisão cautelar do mais notório líder político do Brasil. Alegou que "a prudência recomenda que se aguarde o julgamento" para se evitar "certos traumas". Entenda-se, a mobilização popular em apoio a Lula.

Em pronunciamento no dia seguinte à sentença, o fundador do PT declarou: "quem acha que é o fim do Lula vai quebrar a cara. Quem tem o direito de decretar o meu fim é o povo brasileiro". E confirmou ser candidato à presidente da República em 2018, em busca do terceiro mandato: "Se alguém pensa que, com essa sentença, me tiraram do jogo, pode saber que eu tô no jogo". Acrescentou ainda que só a história poderá julgá-lo.


O juiz considerou existirem provas de que Lula é o legítimo proprietário de um apartamento tríplex na praia do Guarujá (SP), no qual a construtora OAS teria investido R$ 2,15 milhões em troca de benefícios obtidos em contratos com a Petrobras. Lula nega que o imóvel seja de sua propriedade. A defesa insiste que a promotoria jamais mostrou a escritura do imóvel em nome da família Lula da Silva. Portanto, a acusação é infundada.


A sentença aplicada ao líder do PT não se baseia em provas, e sim na delação de um corruptor preso pela Lava Jato: Leo Pinheiro, dono da OAS, condenado a 44 anos.


Para decretar a condenação de Lula, que deixou o governo no início de 2011, com 87% de popularidade, o juiz escolheu o momento adequado. No mesmo dia, o Congresso aprovou a reforma trabalhista proposta pelo presidente Temer e que retira dos trabalhadores brasileiros direitos conquistados nos últimos 70 anos.


O que se destaca como peculiar é que a Lava Jato só existe graças aos governos Lula e Dilma. A corrupção sempre foi endêmica em nosso país, desde a monarquia. O novo é o fato de vir à tona e haver punição de corruptores e corrompidos. Isso graças aos governos do PT, que reforçaram o Ministério Público e a Polícia Federal.


O próprio juiz Moro assinala em sua sentença: "É forçoso reconhecer o mérito do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fortalecimento dos mecanismos de controle, abrangendo a prevenção e repressão do crime de corrupção (...), especialmente nos investimentos efetuados na Polícia Federal, no fortalecimento da Controladoria-Geral da União e na preservação da independência do Ministério Público Federal (...)" (ponto 793 da sentença).


Por que, então, o povo não ocupa as ruas em defesa de Lula e a favor do "fora Temer"? Entre os vários fatores, destaco o crescente desemprego; o desencanto com a política; o vandalismo recorrente em manifestações recentes, que infunde medo à violência; o espaço ocupado pelas redes sociais como ferramentas de protestos e denúncias. Não há no Brasil, hoje, nenhuma força política com suficiente representatividade para promover mobilizações de rua significativas.

A sentença aplicada ao líder do PT não se baseia em provas e sim na delação de um corruptor preso pela Lava Jato: Leo Pinheiro, dono da OAS.

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