Autocrítica de esquerda

Frei Betto / 11/06/2017 - 06h00
A esquerda latino-americana não anda com boa saúde. Perdemos Fidel; o PT está encalacrado na Lava Jato; a Venezuela é, hoje, uma terra em transe. A Revolução Bolivariana não logrou criar raízes como a cubana. 
 
Em Cuba, a revolução foi obra de um povo. O que explica o fato de os EUA jamais agredirem belicamente a ilha, após o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Os ianques aprenderam, com a derrota no Vietnam, que governos (como Iraque, Líbia e Afeganistão) se derrubam; um povo, jamais.
Os governos progressistas da América Latina estão ameaçados pelo avanço da ofensiva neoliberal. Sofreram golpes parlamentares Honduras (2009), Paraguai (2012) e Brasil (2016). Na Argentina, a direita elegeu Macri. No Equador, Rafael Correa fez Lenin Moreno seu sucessor por pequena margem de votos. Na Bolívia, Evo Morales se depara com o desgaste de sua base de apoio. 
 
No Chile, Bachelet tem baixíssimo índice de popularidade e a direita se assanha para retomar o poder nas próximas eleições. Na Nicarágua, a esquerda se divide entre os que apoiam e os que se opõem ao governo de Daniel Ortega. Salvam-se El Salvador e Uruguai, onde a esquerda moderada não enfrenta grandes dificuldades.
 
Não existe hoje, na América Latina, uma correlação de forças que assegure, em curto prazo, a superação do modelo desenvolvimentista neoliberal por um novo modelo de sociedade centrado nos direitos dos trabalhadores, na inclusão social dos setores marginalizados e excluídos, e na preservação ambiental.
 
Alguns governos progressistas adotaram verdadeira esquizofrenia ao proferir um discurso político de esquerda e, ao mesmo tempo, abraçar uma política econômica regida pelo capital internacional, dependente da exportação de commodities, sem criar bases de sustentabilidade para o desenvolvimento do país. 
 
No Brasil, no governo do PT adotou-se a emulação do crescimento (PAC – Política de Aceleração do Crescimento), visando a, em primeiro lugar, anabolizar o PIB. E a dependência da exportação de matérias-primas, hoje elegantemente denominadas commodities, agravou o processo de desindustrialização.
 
A corrupção se entranhou nas estruturas governamentais, cooptou líderes políticos como agentes de interesses privados de grandes corporações e corroeu a credibilidade ética da esquerda. Abandonou-se o horizonte socialista e acreditou-se na política de inclusão assistencialista dos mais pobres, sem alterar minimamente as estruturas sociais e os direitos de propriedade. 
 
Cedeu-se à falácia de que o capitalismo é passível de humanização. Priorizou-se o acesso da população a bens pessoais (celular, computador, eletrodomésticos etc.) e não a bens sociais (alimentação, saúde, educação etc.). Não houve empenho em preparar as bases de uma democracia participativa. Movimentos populares foram alijados como interlocutores preferenciais ou cooptados para atuarem como correia de transmissão entre governo e bases sociais.
 
É hora de fazer autocrítica e corrigir rotas, antes que seja demasiadamente tarde. Pena que, em seu congresso nacional, na primeira semana de junho, o PT tenha declinado desse dever político sob o pretexto de não dar munição aos adversários. Quem se cala, consente.
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