A Discórdia sobre a Queda da Desigualdade

Jorge Alexandre / 12/10/2017 - 06h00

Estudos recentes de pesquisadores brasileiros e estrangeiros sobre a desigualdade de renda no Brasil utilizando a metodologia desenvolvida pelo economista francês Thomas Piketty têm causado grande alvoroço entre muitos colunistas da mídia tradicional brasileira. Ficam entusiasmados com a perspectiva de tornar terra arrasada as festejadas conquistas sociais dos governos do PT. Não será assim tão fácil destruir esse legado! 

Primeiramente, porque a percepção das pessoas mais pobres – revelada nas pesquisas quantitativas e qualitativas – mostra que as administrações petistas, principalmente os governos do presidente Lula, foram períodos em que suas vidas melhoraram de forma muito rápida. Mais uma evidência disso é que Lula se torna uma figura cada vez mais central para as eleições de 2018, sendo ou não candidato, visto que as pesquisas mais recentes mostraram que pelo menos 26% dos eleitores estariam dispostos a votar em alguém indicado por ele.

Em segundo lugar, a discussão sobre a queda da desigualdade é algo muito mais complexo. As pesquisas que seguem a metodologia de Piketty parecem estar corretas ao demonstrar que a desigualdade geral da renda não caiu em função do crescimento da renda oriunda de fontes não laborais. Ou seja, os governos petistas não combateram o rentismo. Todavia, os resultados de pesquisas que utilizam dados das PNADs são relevantes para mostrar que houve um tipo importante de queda da desigualdade, qual seja, a salarial.

A maior parte da população vive de salário e, portanto, essa queda de desigualdade salarial foi, sim, de relevante. Além disso, a queda na desigualdade educacional e a queda no efeito da escolaridade sobre a posição ocupacional também são de grande relevância. Afinal, para mais de 95% dos brasileiros o que interessa é justamente a educação e a alocação ocupacional.

Portanto, houve reduções importantes da desigualdade no Brasil em anos recentes. Essa redução foi relevante, pois não é apenas a queda da pobreza que conta, como parecem acreditar alguns economistas ortodoxos, para quem a preocupação com a desigualdade seria apenas uma questão de inveja. Infelizmente, eles não conhecem algo que é caro a nós sociólogos, o conceito de privação relativa. Desde os trabalhos do grande sociólogo americano Robert Merton, na década de 1950, sabemos da importância da privação relativa. Entre outras coisas, dela podem derivar até guerras.

A discórdia sobre a queda da desigualdade tem, porém, pelo menos um efeito positivo: pôs na vitrine da grande mídia a necessidade de realização de políticas distributivas que obriguem os ricos a pagarem mais impostos, bem como a necessidade de combate ao rentismo. Um próximo governo de esquerda não conseguirá fugir disso!

 

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