Caixas de Pandora

Jorge Alexandre / 17/08/2017 - 06h00

Em 5 de fevereiro de 2003, o então secretário de Estado americano, Colin Powell, fez um discurso perante o Conselho de Segurança da ONU no qual garantia ter provas de que o regime de Saddan Hussein tinha estocado uma enorme quantidade de armas químicas. Tempos depois, os EUA reconheceram que tais armas jamais existiram, mas já era tarde. Aquele discurso de Powell marcou o processo de busca de legitimação por parte do governo de G. W. Bush para a invasão do Iraque. Foi como abrir uma Caixa de Pandora, liberou uma corrente de forças que terminou por levar várias partes do mundo à situação que vive hoje. Dois exemplos são a situação atual da Síria e o Brexit, que talvez não existissem hoje se não tivesse ocorrido a invasão do Iraque, cuja justificativa veio daquele discurso infame do secretário Powell.

Em 11 de abril de 2002, um golpe de Estado promovido por grupos empresariais, a mídia tradicional, políticos de direita e segmentos das forças armadas, com forte apoio dos EUA, retirou do poder o presidente eleito Hugo Chávez, dissolveu a Assembleia Nacional e o Supremo Tribunal, anulou a Constituição e instalou como presidente o senhor Pedro Carmona, da Federação Venezuelana de Câmaras de Comércio. O golpe foi vencido e, 47 horas depois, o presidente Chávez voltou ao cargo. Todavia, o mal já havia sido feito! O golpe de 2002 abriu uma Caixa de Pandora que transformou a política venezuelana em um “vale tudo”. 

Há coisas importantes sobre a Venezuela que não são ressaltadas pela mídia tradicional brasileira, como o fato de o IDH ter passado por um forte processo de aceleração na sua elevação a partir do início do governo de Chávez, em 1999, e que ele ainda hoje – a despeito de toda crise pela qual tem passado o país – está em um patamar (0,767) superior ao brasileiro (0,754) e muito acima de um país “queridinho” do “mercado” e da mídia tradicional, a Colômbia (0,727).

A crítica dos EUA, do “mercado”, da mídia tradicional e dos políticos de direita aos ataques à democracia na Venezuela é desprovida de autoridade moral ou legitimidade pelo simples fato de que todos eles apoiaram o golpe de 2002. Legitimidade vem da coerência, algo que, infelizmente, não é típico desse grupo de atores políticos. 

P.S.: Enquanto que a mídia tradicional brasileira está dando cobertura privilegiada à crise venezuelana, ignora por completo a maior crise humanitária do continente americano e uma das maiores do mundo. Há seis milhões de colombianos que foram obrigados a migrar desde o final do século passado, a maioria expulsa de suas terras por milícias de direita. O acordo de paz promovido pelo atual presidente prevê a devolução das terras e a realocação populacional, mas está sendo boicotado pelos segmentos conservadores do país.

 

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