Crescimento com equidade

Jorge Alexandre / 27/04/2017 - 06h00

Na semana passada, escrevi sobre desenvolvimento social, sobre como ele cria um ciclo virtuoso de crescimento. Ressaltei, também, como políticas focadas nos mais pobres – tais como o Circuito Mineiro de Compras Sociais e o apoio aos bancos comunitários, no nível estadual, ou programas federais de microcrédito, como o CrediAmigo do BNB, que está presente em Minas e ganhou grande impulso a partir de 2004 – geram interação positiva entre desenvolvimento social e econômico. Pesquisas têm mostrado que há entre os estratos de menor renda no Brasil um forte espírito empreendedor. Essa característica torna os pobres brasileiros bem diferentes daqueles dos países desenvolvidos. De modo geral, áreas urbanas com elevada concentração de famílias de baixa renda no Brasil têm um ambiente econômico bastante dinâmico, com a presença de todo tipo de negócios, algo bem raro em localidades semelhantes de países ricos.

Estudos desenvolvidos por sociólogos e economistas mostram que a dinâmica econômica das populações de baixa renda no Brasil ajuda a criar um mercado de trabalho bastante flexível. É verdade que nosso mercado de trabalho é menos flexível do que o americano, porém bem mais flexível do que a média dos países europeus. Deve-se observar que a crescente flexibilidade do mercado de trabalho americano só tem levado, há décadas, a uma redução permanente do valor real dos salários. Todavia, isso não tem sido suficiente para manter investimentos industriais no país. A piora das condições do mercado de trabalho nos EUA e a perda de investimentos industriais contribuiu para a desastrosa eleição de Donald Trump e, provavelmente, tem contribuído para a piora da qualidade de vida do povo americano, algo que resulta na elevação da taxa de mortalidade de certos segmentos da população, como tem sido demonstrado por pesquisadores da Universidade Princeton.

Em contraste com os EUA das últimas décadas, no Brasil vivenciamos, em particular entre 2003 e 2012, uma experiência de crescimento com equidade. As políticas de transferência de renda elevaram o padrão de vida da população mais pobre, sem reduzir sua participação no mercado de trabalho (ou seja, as políticas sociais não geram um “efeito preguiça”), e políticas de incentivo ao empreendedorismo atiçaram o dinamismo dessa população. Esse ambiente de crescimento com equidade – hoje em franca deterioração – gerou a elevação da renda presente e, ainda mais, criou condições para a elevação da renda futura, em função de seus efeitos na formação de capital humano. Reformas regressivas, como a trabalhista e a previdenciária, da forma como estão hoje postas, vão na contramão do processo que vivemos em anos recentes e poderão condenar o Brasil a um triste futuro.

 

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