O Esgarçamento do Tecido Social

Jorge Alexandre / 21/12/2017 - 06h00

Em um mesmo dia, o IBGE divulgou sua Síntese de Indicadores Sociais e a ONU um Relatório sobre a Pobreza nos EUA, ambos com quadros alarmantes! Respeitando as devidas proporções, Brasil e EUA irmanam-se em um processo de degradação social marcado pela elevação da pobreza e da desigualdade resultante de quebras de pactos. Nos EUA, a quebra do pacto social do chamado New Deal, de Franklin Roosevelt, iniciado na década de 1930. No Brasil, a quebra do pacto da Constituição Federal de 1988 (CF-88).

<TB>No que diz respeito aos países desenvolvidos, as três décadas entre o final da segunda guerra mundial e a ascensão do neoliberalismo foram um “período de ouro”. Nunca houve tanto crescimento econômico e tanto desenvolvimento social. Por que isso ocorreu? Porque os capitalistas agiram como Ulisses ao se aproximar do encontro com as sereias. Seguindo um mecanismo descrito pelo cientista social Jon Elster, os capitalistas ocidentais criaram restrições à sua própria vontade, que seria a do lucro desmedido no menor prazo possível. Aceitaram a manutenção ou construção de pactos sociais, com intensas ações do estado no combate à pobreza e na redução da desigualdade. No médio prazo, esse pacto leva a maior crescimento, pois cria um ciclo virtuoso na economia.

Um pacto social semelhante (porém em escala muito menor) se observou no Brasil, a partir da CF-88. Apesar das dificuldades enfrentadas na década de 1990, o processo de consolidação de políticas de desenvolvimento social se deu de forma crescente até a ruptura ocorrida no ano passado. Principalmente na década de 2000, pudemos experimentar algo semelhante ao que os países capitalistas centrais vivenciaram no seu “período de ouro”. Tínhamos crescimento econômico com desenvolvimento social. O pacto da CF-88 está sendo rompido e a consequência é o esgarçamento do tecido social.

<TB>Neste momento, contudo, temos no Brasil uma vantagem em relação aos países capitalistas centrais. Ao contrário do que ocorre, de modo geral, na Europa Ocidental (Portugal talvez seja uma exceção) e nos EUA, aqui as pesquisas têm mostrado a retomada do apoio popular à esquerda que participa de forma institucionalizada do processo político formal. Esgarçamento social não é algo bom para ninguém, nem mesmo para os donos do dinheiro. A existência de uma esquerda institucional e forte torna possível uma reconstrução do pacto social brasileiro, que beneficiaria a todos, pois é preciso um ator organizacional capaz de representar as demandas populares no tabuleiro político. Essa esquerda institucional já se mostrou disposta a retomar as negociações para a reconstrução do pacto. As elites brasileiras têm a oportunidade de agir como Ulisses e salvar a todos, inclusive eles próprios!

 

 

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